Tief in das endlosen Meer

Tenho me permitido muitos questionamentos nos últimos tempos, coisas que antes eu se quer me dava ao luxo de pensar sobre, eu achava que precisa resolver primeiro algumas coisas bem complicadas que carrego internamente. Os questionamentos aos quais me refiro têm a ver com estilo de vida, escolhas que dizem respeito à alimentação, o espaço que quero dedicar na minha vida para cultivar simplesmente as coisas que me fazem bem e as amizades. As coisas bem complicadas das quais falei fizeram com que eu me trancasse em mim mesma durante muito tempo, era quase como me sentir como alguém incapaz de viver, eu me enterrei viva nas minhas mágoas e nos meus medos.

Ter hoje essa clareza é uma benção ambígua, pois ao mesmo tempo que me tira de um poço escuro, me obriga a caminhar no território hostil da realidade. É preciso ordenar a vida, enfrentar os medo, curar as mágoas; mas é preciso também viver.

luna-and-the-whale-III-eugenio-cuttica
Imagem: Eugenio Cuttica

Os últimos dias têm sindo estranhos, complicados, quentes demais. Mal tenho conseguido dormir, mal tenho conseguido comer, tenho sentido meu corpo fraco e muitas vezes a sensação de sufocamento é quase insuportável. Mas tenho conseguido ordenar devagarzinho as coisas que há muito me incomodam, coisas que acreditei que iria ter que arrastar em segredo durante toda a vida que ainda me resta viver. Aos poucos, e ainda de um jeito meio torto, tenho começado a colocar essas dores no mundo, a falar sobre elas mesmo que nas estrelinhas. Tenho admitido pra mim mesma minhas dores, e essa é ainda a parte mais importante desse processo pra mim.

Tenho oscilado entre a agressividade e a tristeza. Tenho pensado muito sobre a pessoa que quero me tornar, sobre os obstáculos internos que preciso vencer para me tornar esse alguém, e sobre as possibilidades que tenho no mundo real para poder de fato existir. Tenho tomado decisões e tenho tentado vivenciar a dor como um processo de fortalecimento. Tenho tentado olhar com respeito cada sentimento e lembrança que se liberta do baú que finalmente abri depois de por tanto tempo ter negado.

Mas tem dias que tudo isso são só palavras bonitas pra um texto.

Porque mesmo que hoje haja uma clareza nas ideias que jamais me foi possível antes, ainda não encontro forças pra construir o que quer que seja no mundo real. Essa percepção é como uma âncora de chumbo que me arrasta pra o fundo do mar onde os sons são distantes e distorcidos, onde existe uma calmaria gelada e perigosa, e onde em momentos como agora me parece ser o melhor lugar pra se estar.

“Das Meer war tief, das Meer war wild, das Meer war endlos. Es gab noch kein Leben in diesem Meer, dessen Wasser von gewaltigen Stürmen gepeitscht wurde. Seine Wellen türmten sich, als wollten sie die Sterne von Firmament greifen und mit sich in die Tiefe reissen.”


Instagram ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Twitter ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Facebook ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Filmow ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Skoob ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Flickr 

Anúncios

“Não ligue, não ouça, são pontos de interrogação.”

bertil_nilsson
Foto: Bertil Nilsson

Você não percebeu estar perto de uma pessoa machucada? Você não viu meus cortes? Minhas marcas? Eu deixei que você as sentisse com as pontas dos dedos. Eu deixei. Eu permiti.

Eu já não sei se fui eu que te convidei pra entrar ou se simplesmente permiti que você entrasse e visse toda a bagunça ao redor; não tentei esconder, nem pedi pra não reparar. Você reparou?

Não houve invasão, não houve arrombamentos, não foi preciso se prestar queixa, não houveram lamúrios nem súplicas. E as lágrimas que houveram eram antigas. Tão antigas e tão pesadas. Você sentiu o peso? Você ouviu as histórias mudas que chorei já sem quase mais conseguir fazer silêncio? Você ouviu meus berros há tanto silenciados capazes de acordar uma cidade inteira? Você sentiu a explosão?

Você falou que era preciso arrancar de uma só vez os curativos das feridas antigas. Você falou ou eu sonhei?

Você viu as feridas? Antigas, abertas, inflamadas, abafadas sem possibilidade de cura embaixo de tantos vícios imaturos; esses curativos precários, mas foi o melhor que encontrei para estancar cortes profundos que caso contrário poderiam ter me matado. E isso não é figura de linguagem.

Você já esfolou um joelho? Já teve que cuidar de algum machucado que não cicatrizava? Um talho no dedo? Uma queda de bicicleta? Um acidente de percurso? Uma queimadura talvez?

Cuidar de feridas antigas e negligenciadas dói. Dói mais que a própria dor em si.
Você me entende?
Acho que não.
Você precisa limpar a ferida, limpar o sangue antigo incrustado, drenar o pus, desinfetar, sentir arder. Aí você percebe a profundidade do corte, você precisa procurar ajuda.
Mas não tem ajuda.

Dói mais que a dor em si.

Repetir diariamente todo o processo, limpar, desinfetar, drenar. A ferida vai fechado, mas você precisa olhar diariamente pra aquele seu pedaço exposto de carne viva.

Até que se forme uma cicatriz grosseira, que ainda será dolorida. Mas eu acho que ainda não cheguei nesse estágio.

Sabe quando todos os objetos pelo caminho insistem em ir de encontro a um machucado recente?

De vez em quando esbarro sem querer em alguma lembrança que não deveria. Quase sempre é em você. E a ferida lateja, às vezes sangra.
Agora está sangrando.
Você viu o sangue escorrendo em cada uma destas linhas?


Instagram ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Twitter ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Facebook ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Filmow ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Skoob ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Flickr 

Entremeios – Die Woche #1

entremeio
substantivo masculino

01. o que está de permeio; intermédio.
02. espaço, coisa, tempo etc. que se encontra entre dois pontos, dois extremos, dois limites; intervalo.

Tenho pensado na rotina que vem se moldado nas últimas semanas e isso tem me deixado meio triste. Há menos de três meses havia um ânimo tão diferente por aqui, novas ideias, novos planos, novas certezas, um turbilhão de sentimentos.

Pensando de verdade em tudo isso não consigo entender de início de onde vem a tristeza,  já que, mesmo que aos trancos e barrancos, venho colocando as ideias em curso, os planos seguem firmes e são as novas certezas que têm me guiado. Quando falo em certezas não quero dizer que ainda não ande cheia de dúvidas, mas é através dessas dúvidas que vou construído novos degraus. E não, o desânimo do qual eu falo não tem nada a ver com não ver sentido nas coisas que tenho acreditado e trabalhado. Não é nada disso, é só que entre a ideia e o concreto existe todo um caminho onde diariamente a fé naquilo que se desejou precisa ser renovada.

E renovar diariamente essa fé tem a ver com saber continuar. Eu nunca aprendi a continuar, a respeitar o tempo que as coisas precisam para tomarem forma depois do rompante inicial de se lançar em um novo ideal. Não aprendi a lidar com os sentimentos brandos que habitam os espaços entre o plantio e a colheita. A manter firme o desejo de ver frutificar uma ideia mesmo sabendo que muitas vezes isso pode levar anos. E assim foram muitos erros, oportunidades desperdiçadas e hoje um quase desespero em me ver a essa altura com nada de concreto nas mãos.

CUNwFdeWcAEs87i

Às vezes fico a espreita de alguma epifania que me salve do tédio dos dias que se seguem e repetem-se. Noite passada, exausta na insônia, percebi que sinto falta do turbilhão de sentimentos acotovelando-se e sobrepondo-se. Depois do terremoto que fez ruir meu edifício interno veio a dor pungente de quem chora sobre escombros. E depois de dançar com a dor de ver todas as minhas memórias, que tanto quis enterrar, despedaças e expostas para mim mesma me desafiando a olhá-las sem ter mais onde me esconder; depois de sentar com a dor para longas conversas que vararam madrugadas e berros, depois de conhecê-la bem, ela cedeu lugar à calmaria que sucede um maremoto. Calmaria que traz a certeza e a força para se reconstruir, esse o milagre depois das mil lágrimas.

Depois de me aninhar na nascente morna das lágrimas que pareciam nunca ter fim, mas que regaram a semente de um novo eu mais forte, sinto uma dificuldade enorme de caminhar no solo árido da realidade. Não que não tenho chorado, e são as lágrimas pesadas que derramo quase sempre aos domingos que purificam e amolecem um pouco esse chão, é como alguém que não se cansa de regar uma terra escura com a certeza de que uma hora algo vá florir. E é assim que tenho aprendido aos pouquinhos a continuar.

Hoje, depois de ter olhado sem medo para os meus traumas, dores e aflições, tenho um coração mais leve onde posso cultivar sentimentos bons, a clareza que me faltava para aceitar a brandura de sentimentos que se fazem necessários nos entremeios. Mas cultivar o que quer que seja dá trabalho, exige disciplina e um bocado de paciência, você precisa contornar adversidades só mantendo a esperança que algo que ainda mal brotou vá florir, e ainda assim você espera por frutos que só chegaram numa próxima primavera.

E é esse meu desafio hoje, viver nesses espaços de espera ativa. Não perder de vista o objetivo final, cultivar sentimentos que vez ou outra fazem doer, mas alimentam. Ter a paciência, a disciplina e a coragem de regar diariamente o mesmo pedaço de chão e acreditar na força dos frutos mesmo quando tudo o que se tem é um punhado de terra preta sob os pés. Aquecer em fogo brando os sonhos, e não desistir como quem desenha, munido de lápis e borracha, num papel, mas continuar sabendo que é em linho puro que se borda a vida.


Instagram ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Twitter ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Facebook ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Filmow ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Skoob ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Flickr 

Deixa eu falar dos domingos, depois eu falo dos abismos.

Domingos são estranhos, sempre foram. Existe uma rotina que se mostra imutável aos domingos, e quase sempre ela vem repleta de melancolia.

As rotinas dominicais mudaram ao longo dos anos, claro, mas se forço um pouco a memória percebo que a melancolia sempre esteve presente. Amigos vieram e se foram, bichos de estimação me alegraram e morreram, histórias da roça me amedrontaram e hoje são uma lembrança boa dos tempos em que minha avó ainda me contava histórias, ainda penso que nesse sentido coisas precisam ser reavivadas. E tudo isso faz parte do baú da memória que se torna mais pesado aos domingos. Foram domingos que passou.

Os tempos das roupas de domingo, o chão vermelho de cimento queimado recém encerado, a tia na cozinha, estudo bíblico, sim, estudo bíblico, matinal, e aos domingos. Cheiro de cera, de lasanha e gosto de guaraná. E eu me pergunto por que as pessoas dedicam à Deus o domingo, e são tão escrotas em todos os outros dias da semana.

Mas são as memórias mais recentes, de domingos eternos que duraram um sopro, que hoje inflamam a memória. Triste Bahia… Entre todas as músicas, de todos os domingos e memórias elegi para os domingos um hino. Pra dar o tom à essa tristeza que me rói os ossos, mas guarda algo de bonito e bem lá no fundo fala é de força.

E sobre esses últimos domingos, e os versos e melodias do Caetano, não sei falar mais muito. São só memórias e hoje o domingo é de olhos turvos. Tanto quis reter em palavras enfileiradas e pontuadas os gostos, as conversas e os sons que me perdi. E me traí.

Mas hoje, mesmo sem saber quais palavras usar, queria só falar desses domingos bonitos, do céu e de lugares mágicos. Mesmo que seja de um céu que se desfez, e de uma magia que hoje só faz pesar ainda mais o baú das memórias. Mas o que se planta na memória não morre.


Instagram ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Twitter ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Facebook ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Filmow ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Skoob ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Flickr 

 

Dos Cadernos Empoeirados: Confederação Helvética

suíça-blog-queimei-meus-navios-leticia-almeida

 
A Suíça para mim continua sendo o lugar para onde vou só para não passar o Natal sozinha.
Só pra me acertar com meus fantasmas.
Só, e nesse só, nem mas a loucura vai me fazer companhia.
É o lugar que me resta para ir quando o resto do mundo se torna inóspito.
A promessa que faz fazer sentido o calendário.
É o pesadelo que me serve de refúgio.
E o sonho sempre interrompido.
É a mais plena alegria quando raia o sol.
E também o eterno inverno e seus tormentos.
A boneca nova.
A música velha.
A criança sem infância.
O outro lado do oceano.
A terra firme.
O porto seguro.
O farol em ruínas.
Os nervos em frangalhos, o medo constante, o frio na barriga.
É o tesouro roubado, e o que se tranca à sete chaves.
A história mal contada, a verdade inventada.
A tradução mas fiel do que é saudade.
É as noites de luar, a conversa de botas batidas.
O trem perdido. A hora errada.
São poucos lugares e muitos nomes.
Janela fechada, porta aberta.
Ou coração de pedra lá de Basileia, sangrando em verde e amarelo.
O que arde e queima.
O grito preso na garganta.
Despedida e recomeço.
Esperança e desafio.
É pouca vida pra tanta lágrima.
E pouca poesia pra tanta prosa.

suíça-blog-queimei-meus-navios-leticia-almeida

suíça-blog-queimei-meus-navios-leticia-almeida

suíça-blog-queimei-meus-navios-leticia-almeida

De um caderno empoeirado de 2010

E lá se foi Setembro… Uma conversa de botas batidas

Gostaria de estar atualizando o blog com mais frequência, dedicando alguns posts legais às mudanças que têm acontecido por aqui. Realmente estou vivendo numa fase de pequenas coisas que têm se mostrado grades passos no meu processo de amadurecimento e de “ser a pessoa que sempre quis ser”. Às vezes fico com textos legais martelando na cabeça durante dias, mas quando sento pra escrever não consigo formar uma frasezinha se quer. Parei de me forçar a escrever, sabe, tenho mania de tentar guardar alguns sentimentos e aprendizados em textos, talvez seja melhor simplesmente viver e deixar que uma hora a vida traga de volta a inspiração perdida…

Outro motivo de eu ter perdido o tesão de vir aqui compartilhar fatos completamente desinteressantes sobre minha vidinha é que o visual do blog tem me cansado, entro na página inicial, quando entro por falta de opção, e fico bem desgostosa com o que vejo. Nada mais justo do que o blog começar a acompanhar as mudanças que estão acontecendo por aqui. Faz muito tempo que quero ter um domínio, um layout legal que tenha mais a ver comigo e falar sobre alguns temas que gosto bastante mas me sentia meio insegura e cheia de neuras bobas. Enfim, transformar o blog num lugar aconchegante, porque apesar de não estar satisfeita em como o blog está hoje, não consigo pensar em abandonar de vez essa vida blogueira, sinto muita falta disso aqui. Mas todas essas mudanças além de tempo e trabalho têm um custo, portanto isso é algo que irá acontecer aos pouquinhos, mas acontecerá dentro em breve.

Captura de Tela (156)edit

Enfim, bora falar de como foi o mês?!
Setembro trouxe a conclusão de alguns processos internos que já vinham acontecendo há um tempo. Talvez esteja me precipitando em falar de conclusão, mas quando olho para o que eu era, pensava e desejava há três meses já não consigo me reconhecer. E setembro trouxe a certeza disso, a certeza de que alguns passos foram dados e mesmo que eu ainda tropece e dê alguns passos para trás percebo que já não é mais possível voltar para aquela estaca zero onde eu vivia de tudo o que mais odiava. Aquele clique aconteceu e tomei coragem, tem sido perigoso falar de coragem, mais por falta de outra palavra melhor, tomei coragem e dei aquele grito de independência interno, a proclamação de alguns nunca mais. E, bem, não foi preciso um grande acontecimento externo para que isso finalmente se desse.

Setembro foi uma montanha russa de sentimentos, como se outro e qualquer mês dessa minha vidinha louca não fossem, Drama Queen, tempestade em copo d’água, tudo de mais e sem motivo, essa sou eu, fazer o quê?! ¯\_(ツ)_/¯
Mas depois de um bom tempo achando que tinha superado algumas coisas meio pesadas e difíceis de dizer, caí de novo em uma crise punk, dessas de beijar o fundo do poço. E fiquei surpresa com a rapidez que consegui sair de lá. Acho que precisava experimentar mais uma vez o que de pior eu posso sentir pra conseguir reunir forças suficiente pra dizer um bom e sonoro nunca mais.

Captura de Tela (159) edit

Nesse mês que passou levei minha tristeza e meu cansaço pra passear com frequência. Chorei sozinha numa sala de cinema lotada de crianças vendo o Pequeno Príncipe. E me senti grata por todos os contra tempos que a vida tem posto em meu caminho. Deixei que a água salgada lavasse pra bem longe todo o mal. E Haja água salgada pra pouco mês! Tenho chorado. O quanto tenho chorado? Bem, tenho lembrado constantemente daquela copa de 94, e isso significa que tenho chorado bastante. Dito assim isso parece bem ruim, é verdade que tem noites que abafo o choro no travesseiro sob o risco de acordar os vizinhos. Mas no dia seguinte nem o espelho desconfia de nada disso. O que há de certo é que os dias nunca foram tão claros por aqui; tenho refeito as nascentes que o medo secou.

Setembro veio e se foi com a brevidade das conversas em bares, e todos os clichês que existem numa possibilidade de amor, ou na esperança dessa possibilidade, que seja. Todos os clichês que podem existir em sonhos tecidos à beira mar. Algumas lembranças de algo bom, que hoje trazem consigo um nó na garganta quando evocadas. Floreios. Setembro trouxe noites e histórias divididas em camas impregnadas de sentimentos controversos, esquinas baratas do centro da cidade onde uma luz bonita entra pela janela quando se é permitido parar os relógios. Mais floreios. Uma crença ingênua numa nudez sincera e eu em lágrimas pesadas me transbordando de todos os medos, crenças e lembranças dolorosíssimas que me impediam de viver o que deseja a mulher que vez ou outra me sorri de relance através dos espelhos.

Captura de Tela (158) edit3

E a primavera finalmente trouxe a certeza de que posso sobreviver paradoxalmente ainda mais inteira depois de querer arrancar do peito à unha um coração esmigalhado. Precisei defender bravamente minha covardia para ser capaz do ato heroico de enfrentar minha dor e meu amor sozinha e me entregar a maré de emoções que esses dois juntos trazem à tona quando já não se pode chegar a lugar algum através das racionalizações. A conclusão disso tudo é que perdi meu medo do ridículo, o próximo passo talvez seja finalmente conseguir escrever poesias.

A primavera escancarou as janelas, fez penetrar luz onde há muito só havia lixo e limpou sem dó nem piedade os cantos mais escondidos da casa e da alma.
O purgatório onde por anos me aninhei veio abaixo a golpes de martelo. Novas possibilidades com cheiro de tinta fresca e um canto de paredes coloridas onde eu posso ir juntando devagarinho os fragmentos de um sonho.
A propósito tenho sonhado. Tenho tido pesadelos também, mas tudo isso é só pra mostrar que não existem paraísos perfeitos e o purgatório onde por anos de deixei estar era só uma cortina de poeira e ilusão que me impedia de ver as coisas com clareza e me impelia a viver fugindo.

Captura de Tela (157)

Hoje o ar fresco e a luz circulam livremente pela casa, e existe um canto feliz pra descansar a cabeça. Hoje a vida circula livremente pela alma, e se ás vezes me transbordo é porque chorar é coisa que faz parte de deixar o rio da vida correr e desaguar no mar infinito de temores e delicias.

Setembro se vai, e leva com ele toda a fraqueza e covardia, mas foi preciso me perder em suas esquinas pra que eu encontrasse a coragem para me reconhecer em minha própria força.


Instagram ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Twitter ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Facebook ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Filmow ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Skoob ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Flickr