Resenha: Criança 44 – Tom Rob Smith

Como fazia tempo que queria ler esse livro, não entendo porque demorei tanto pra comprar e quando finalmente comprei, demorei tanto pra finalmente ler.

Tenho que falar uma coisa, simplesmente um dos melhores livros que já li. Andava sem vontade de ler ultimamente, começa um livro e largava, mas com esse não consegui desgrudar desde o primeiro parágrafo que terminei de ler com lágrimas no olhos.

Sem dúvida um livro cruel, que me fez sentir tão próximos os terrores vividos há mais de 60 anos num lugar tão distante como a antiga União Soviética.

Se trata de um agente de alto escalão da segurança do Estado, Liev, que começa a ver o respeito que tinha dos seus subordinados se enfraquecendo ao mesmo tempo em que surgem rumores do assassinato de uma criança dentro do território soviético, o que é considerado completamente impossível pelos agentes da segurança já que contraria as condições utópicas de uma sociedade igualitária onde não existem motivos para crimes de qualquer espécie. Acreditar que uma criança possa ser assassinada é se transformar em uma ameaça para o Estado, que ao invés de se preocupar com um possível assassino cruel e doentio a solta prefere perseguir com igual brutalidade cidadãos inocentes, considerados inimigos do Estado e da revolução socialista através de provas controversas. Não existe o benefício da dúvida, uma vez alvo de suspeita qualquer cidadão passa a ser uma ameaça que deve ser eliminada não importa se pra isso seja preciso a brutalidade extrema. Liev é um herói de guerra que acredita cegamente no Estado, perseguindo, prendendo, torturando sem limites de crueldade para conseguir confissões forjadas de crimes contra o Estado absurdos e inexistentes e finalmente matando inocentes ou impondo penas  de trabalhos forçados. De repente Liev se vê vítima da engrenagem impiedosa da máquina de segurança do Estado, a partir desse momento suas decisões fazem com que sua vida mude completamente. As ideias utópicas, sustentadas pelo estado e aceitas por ele como verdades absolutas sem questionamentos, começam a ruir e diante dessa nova realidade o novo Liev começa uma caçada a um assassino brutal e frio que é totalmente invisível para o Estado e persegui-lo coloca o próprio Liev na condição de criminoso diante das autoridades. Ao mesmo tempo em que persegue o assassino em um investigação pessoal Liev e sua esposa são perseguidos pela segurança do Estado. É nesse contexto que o casamento dos personagens centrais, Liev e Raíssa, vai ganhando novos contornos, como uma história que vai se desenrolando paralelamente, é como uma flor que vai nascendo em meio ao contexto brutal da trama.

Smith baseou partes de sua história em  Andrei Chikatilo personagem real que tornou-se o primeiro serial killer conhecido da Rússia e assombrou o país entre os anos de 1978 e 1990. Sim, a história é baseada em fatos reais (além do contexto histórico da época stalinista, claro), li o livro todo sem saber disso e descobrir esse fato fez com que a história parecesse ainda mais brutal. Mas apesar disso é um livro que recomendo, apesar de ser uma leitura um tanto perturbadora, principalmente sabendo-se que o assassino da história é alguém que realmente existiu.

Enfim, foram 414 páginas lidas em menos de três dias. Foi um desses livros que ao mesmo tempo que eu queria saber o que tinha na próxima página o mais rápido possível eu não queria que o livro terminasse nunca. Talvez por isso me decepcionei um pouquinho com o final, não queria acreditar que a história terminava ali. Mas é um livro que sem dúvida fica entre os meu favoritos, num cantinho especial da estante para algum dia reler.

O que ficou além da saudade dos personagens com os quais convive por tão pouco tempo foi a vontade de saber mais sobre a história da Rússia do período stalinista, para quem gosta de história, como eu, o livro é uma ótima pedida.

Anúncios