Vegetarianismo e decisões 

Ontem, pra quem não sabe, foi dia do vegetarianismo, e como eu sempre chego atrasada, deixa eu falar umas coisinhas sobre a minha experiência no tema. Já tem um tempo que venho tentando adotar uma alimentação vegetariana, e o que descobri nesse tempo é que fácil exatamente não é.

Uma coisa que aprendi, e que serve de lição para ser estendida para outros setores da vida, é que nunca tome um decisão por motivos externos a você. Não adianta querer adotar um modo de viver, de ser, um estilo de vida, se baseando no que os outros julgam correto ou acham legal. Uma decisão desse tipo tem que vir de dentro, ser uma decisão tomada por você com você mesmo. Caso contrário é apenas fogo de palha e qualquer esforço se torna contra produtivo e inútil.

Outra coisa que aprendi, e é igualmente válida para ser aplicada na vida como um todo, é que é preciso paciência e tolerância consigo mesmo. No caso da alimentação, não adianta achar que é tão simples tirar totalmente a carne num estalar de dedos, talvez para algumas pessoas seja assim, pra mim não é, não está sendo. Sempre digo que pretendo me tornar vegetariana, porque pra mim isso é um processo, uma reeducação, um aprendizado e tem que ser feito de forma totalmente consciente. Não é algo automático como me dá a impressão de ser na expressão “virei vegetariana”.

Além de tudo a tolerância com o meu tempo, o tempo do meu corpo e os meus processos se mostrou algo muito importante. Há um bom tempo deixei de lado a carne vermelha, nunca fui fã, desde que passei a fazer minha própria comida nunca preparei carne vermelha, não sei lidar com ela crua, com sangue. Mas olha só, amo quibe. A carne de frango sempre me causou uma certa repulsa, que só vem aumentando com o tempo, resolvi deixar de preparar para minhas refeições também. Mas continuo me permitindo uma coxinha vez ou outra. Além do mais amo peixes, frutos do mar, e minha paixão absoluta desde criancinha, presunto!

Mudei minha alimentação, criei o hábito de pesquisar receitas pela internet e tentá-las em casa, essa semana fiz um bife de soja, perfeito não ficou, mas saiu até bem digno para acompanhar a lentilha com abobrinha e arroz integral. Passei a me preocupar mais com minha alimentação depois que comecei a flertar com o vegetarianismo e isso pra mim já é um avanço e tanto. Passei a gastar menos com industrializados e comida na rua também, passei a comer mais alimentos naturais, e acreditem, sai bem mais barato.

E quanto aos meus motivos para continuar investindo na decisão de tornar minha alimentação vegetariana? Uma vez ouvi no centro de meditação que costumo frequentar que se você quer se livrar do sofrimento por qual razão então você vai ingerir sofrimento? Pra mim fez muito sentido, afinal nunca achei simpática a ideia de imaginar uma vaca feliz e pastando livremente (utopia) e depois imaginá-la no meu prato. – E também imaginar todo o processo pelo qual aquele pedaço de carne passou até chegar ao meu prato não é muito simpático quando penso em todas as falhas passíveis de acontecer no nosso sistema de vigilância sanitária. – Não chego a nenhuma extremo com relação a direitos dos animais e coisa e tal, mas tenho que admitir que a ideia de vacas, bois e frangos sendo criados para abate, em condições péssimas e depois sendo abatidos de formas igualmente horríveis, me revira o estômago.

Por fim, acho válido ressaltar que essa, como qualquer outra decisão que alguém deve tomar pra si, diz respeito única e exclusivamente a mim. E é chato quem quer controlar o prato alheio, assim como é chato quem quer controlar o corpo alheio na sua forma e desejos. Perguntas como “ah, mas você come o que então?” e piadinhas como “vai virar Hare Krishna é?” já perderam a graça faz tempo. Da mesma forma que é chato pra caramba o cara que resolve se tornar vegetariano e quer a todo custo doutrinar os outros, esses só me dão a impressão de não estarem seguros na sua decisão. Pode parecer egoísta, mas quando você toma uma decisão para a sua vida, ela, e tudo o que diz respeito sobre ela, só interessam a você. Uma coisa é querer que as outras pessoas saibam dos benefícios que aquela decisão de trouxeram, outra é querer que os outros passem a viver de acordo com os seus padrões. Quem consegue tomar uma decisão com consciência, sabe que o que é bom pra um não necessariamente vai ser bom pra o outro. E nesse mundo, pelo que tenho visto, verdades absolutas só têm servido para machucar mais pessoas. Fica aí outra dica para vida.