Ainda Estou Aqui – Die Woche #6

Sim, ainda estou aqui e isto é mais uma tentativa de me convencer do real que me rodeia. Mais uma tentativa de fazer com que o verbo encarne, porque eu só sei existir por escrito. É através das palavras, muitas vezes ainda enfileiradas em um ritmo catártico, que organizo a confusão interna. E até, quem sabe, são elas, as palavras, a minha ferramenta para transmutar todo o veneno.

Sim, ainda estou aqui e isto ainda é sobre a confusão interna, sobre o veneno, sobre, em última instância, o tempo.
Sobre o tempo que passou, digo sem temer todo o clichê que se resume nisto.

Hoje. Madrugada de Segunda-feira, três de abril de dois mil e dezessete. Lua em câncer. Nove meses.
Nove meses  que resolvi mergulhar no desconhecido na tentativa de me resgatar de tantos abismos nos quais me joguei. Nove meses em que busco dentro de mim mesma os sentimentos que o corpo cansado de tantas violações e navalhas desaprendeu a sentir. Corpo que tantas vezes quis abandonar por não suportar todas as memórias nele marcadas.

Nove meses, lua em câncer, atrás de mim um domingo de outono e céu de nuvens claras. A memória e o mangue que gesta e nutre a vida. Vida, esta minha escolha ainda vacilante. Memória, este eterno revolver a mim mesma para me achar dentro da minha história.

Mangue, túmulo e útero. Eu parindo um eu mais forte. Tudo converge, foram necessários muitos túmulos e muitos partos para que eu conseguisse estar aqui, de pé, sem nem saber ao certo como ainda me sustento, mas de pé, nas quatro patas.

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Ainda estou aqui e gostaria de poder resumir toda a magia que pude experienciar neste mergulho dentro de mim mesma, mas agora sou apenas um eco pálido de gratidão vagando dentro de uma insônia amarga e confusa. Ainda assim, isto é a tomada de fôlego antes do próximo mergulho, a intenção que evoca força e coragem para ir ainda mais fundo.

Então, que fique aqui como registro, como lembrete, migalhas de pão que deixo, talvez inutilmente, pelo caminho que segue só em um sentindo: em frente. Cavo algum sentimento já quase dentro de um entorpecimento lírico e venho falar das pessoas, das experiências, das conversas e descobertas feitas nesta terra onde ainda falho em compreender sua magia.

Venho finalmente falar do rio correndo para o mar, do nascer do sol, das cirandas ao luar. De tudo que agora me transborda, sim venho falar do sonho e de acordar dentro dele: estar simplesmente aqui, presente. E lembrar que sou luz, e saber que terei sempre comigo a magia de um dia branco.

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Ainda estou aqui, e estou aqui. Diante de mim todos os pedacinhos de mim mesma. Ainda estou aqui, e estou aqui para me fazer inteira.


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“Take These Broken Wings And Learn To Fly” – Die Woche #5

Durante muito tempo fui guiada pela falsa impressão de que enquanto o mundo ao meu redor girava, a minha vida havia estagnado num ponto onde absolutamente nada acontecia. Falsa impressão até certo ponto, porque muito pouco fiz com que acontecesse nesses últimos anos, mas tenho a certeza de que todos os longos caminhos internos que precorri me ensinaram muita coisa.

Uma mudança vem se desenhando lentamente. Hoje posso falar sobre uma nova tomada de consciência, posso dizer também que tenho muito mais tranquilidade e clareza. Mas nada disso afasta o medo que se torna cada vez maior a medida que se aproxima o momento de iniciar uma nova caminhada sem saber ao certo o que virá depois do primeiro passo. Mas isso talvez nunca se possa mesmo saber.

Durante todos os últimos quatro anos ensaie um reinício de vida onde estaria plenamente consciente e qualquer mudança de espaço físico viria de um planejamento, não de uma fuga, coisa que muitas vezes fiz. Acreditava e desejava que o mais importante seria conquistar uma independência que de fato nunca tive. O que realmente aconteceu foi perceber que além da independência não conquistada eu ainda me iludia acreditando possuir alguma autonomia.

Nesses últimos anos adoeci acreditando que precisava me manter isolada para me curar, e me afundei cada vez mais em mim. Não entendia porque todas as tentativas de me mover só geravam frustração e novas dores que imediatamente soma às antigas e me escondia e remoía; sem compreender que estava caminhando em areia movediça. Tudo parece realmente mais simples agora, tanto drama desnecessário, tanto medo, preguiça, desculpas, caprichos. Defeitos, que não valem a pena remoer. Dores que prolonguei demais e que agora ainda falho em lidar, mas aceito, nomeio, transformo, nenhum fardo se deve carregar por toda uma vida.

Koloman Moser
Koloman Moser

Confiar em minha intuição, ter paciência e coragem, mesmo quando sinto medo, são coisas que aprendo agora depois de ter me dado conta que quero viver, quero muito viver. E que a mudança que sempre desejei pra mim é possível, mesmo não sendo da forma como planejei, mesmo precisando lidar com percalços, negociar alguma autonomia dentro de uma situação onde não alcancei a independência que me é tão cara. E aceitar, e ser grata, pela ajuda que chega quando talvez eu não conseguisse sair sozinha do poço sem fundo que me enfiei. Aceitar depender por mais um tempo, mas aceitar isso como uma ajuda, uma possibilidade de curar tudo o que me impedia de ser livre em tantos sentidos.

Agora são poucas as coisas que de fato me entristecem. Mas são mais reais também, porque são minhas. Percebo em mim muitas coisas que não quero mais carregar, opiniões, formas de me expressar, mágoas que ainda arrasto, mortos que ainda não enterrei, um passado que depois de exaustivamente gritado em palavras mudas eu posso finalmente deixar para trás. E todos aqueles clichês sobre não repetir antigos comportamentos e ser alguém novo podem de fato acontecer. Eu acredito nisso.

Não sei como terminar, isto que escrevo agora é algo que continua, uma metamorfose discreta e lenta onde tento criar a leveza que desejo para viver digerindo o peso que me neguei por muito tempo a encarar; mas repetia exaustivamente numa ladainha ensaiada que ainda não deixei completamente de redizer. Mas fica aqui meu mais forte anseio de conseguir esticar asas inteiras ainda na próxima primavera.


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Minha Lista de Clássicos Modernos do Cinema

Parece um tanto paradoxal falar em clássicos modernos? Sim, sim, deve ser, mas resolvi fazer a minha lista dos dez filmes mais marcantes a partir dos anos noventa até os dias atuais.

01. Pulp Fiction – Quentin Tarantino (1994)

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O primeiro desta minha lista foi um dos filmes mais marcantes da década de 90 e um fenômeno pop que não se restringiu ao cinema. Aqui a assinatura do Tarantino se tornou evidente com sua forma não linear de contar uma história, característica que já gerou muitas polêmicas. As três histórias principais são contadas de uma forma completamente não linear, sem um pano de fundo no tempo presente como base para a narrativa, e acabam se cruzando, tudo isso com muito humor sarcástico e violência. A genialidade está em todas as histórias serem muito bem amarradas mesmo com a cronologia delas completamente de ponta cabeça.

O roteiro é incrivelmente bem elaborado, não atoa deu aos roteiristas Quentin Tarantino e Roger Avary o Oscar de Melhor Roteiro Original em 1995. E mesmo se você nunca viu esse filme, provavelmente já deve ter se deparado com alguma referência a ele por aí.

02. Entrevista com o Vampiro – Neil Jordan (1994)

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Todo mundo já deve ter visto esse filme uma vez, nem que seja quando era criança e não se lembra mais da história. Se esse for o caso, recomendo que você assista agora! Lestat, Louis e Armand são os vampiros mais apaixonantes da vida, afinal, Tom Cruise, Brad Pitt e Antonio Bandeiras no mesmo filme não é pouca coisa.

O filme foi baseado em um romance de Anne Rice e o roteiro do longa foi escrito pela própria autora. Recebeu duas indicações para o Oscar de 1995 com Melhor Trilha Sonora e Melhor Direção de Arte, infelizmente não levou nenhum dos prêmios que foram conquistados pelos filmes O Rei Leão (Melhor Trilha) e As Loucuras do Rei George (Melhor Direção de Arte). Ainda assim considero o filme como um dos maiores clássicos dos anos noventa, junto com Pulp Fiction. E sem dúvida alguma um dos melhores filmes de vampiro de todos os tempos.

03. Fale Com Ela – Pedro Almodóvar (2002)

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Obviamente não poderia faltar um título do meu cineasta do coração que é o Pedro Almodóvar. Nesse filme, considerado pela crítica um dos melhores da carreira do cineasta, não se vê algumas das características mais marcantes, como as cores berrantes e personagens caricatos, porém a sensibilidade com a qual o Almodóvar aborda os temas ligados a afetividade humana está mais que nunca em destaque.

O roteiro, que gira em torno da relação de cuidado de dois homens com mulheres em estado de coma, foi vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original em 2003.  Além do foco nessa relação de cuidado o filme também aborda com muita delicadeza a relação entre os dois personagens centrais, Benigno e Marco. Outros detalhes, que não poderia deixar de citar e que contribuíram inquestionavelmente para situar esse filme entre os melhores dos últimos tempo, é a trilha sonora com músicas interpretadas pela Ellis Regina e Caetano Veloso, que inclusive aparece no longa. Além de um curta metragem mudo feito especialmente para compôr o filme.

04. Clube da Luta – David Fincher (1999)

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Segundo a sinopse, que revela muito pouco sobre a quantidade de simbologias contidas no filme, dois homens de personalidades diferentes acabam criando uma nova e controversa forma de terapia ao canalizar seus impulsos violentos em luta corporal, fundando assim um clube clandestino que possibilita que seus membros lutem entre si.

Sim, sem dúvida um filme um tanto polêmico, exatamente por esse motivo talvez se deva a baixa popularidade do filme na época que foi lançado recebendo apenas uma indicação ao Oscar de Melhor Edição de Som em 2000. Mas isso não foi motivo para algum tempo depois o filme se tornar sucesso em VHS e posteriormente em DVD, tanto que consta em primeiro lugar na lista dos 50 DVDs essenciais eleitos pela Entertainment Weekly. Além de ter sido eleito o décimo melhor filme de todos os tempos pela revista britânica Empire e ter o Tyler Durden eleito pela mesma revista como o melhor personagem do cinema de todos os tempos.

05. V de Vingança – James McTeigue (2005)

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Adaptado dos quadrinhos do Alan Moore, escrito e produzido pelas irmãs Wachowski, dupla que ficou conhecida pela trilogia Matrix, o filme foi dirigido pelo James McTeigue, que também foi assistente de direção em Matrix. Conquistou fãs principalmente pelo seu teor subversivo que foi mantido da história original de Moore, porém houveram algumas modificações que incomodaram alguns fãs dos quadrinhos e o próprio roteirista do graphic novel. No entanto, graças a uma dessas alterações, a personagem Evey ganha destaque na trama rendendo a Natalie Portman o prêmio Saturn Awards de melhor atriz em 2007.

A estréia James McTeigue como diretor não rendeu prêmios, além de ter sido alvo de uma boa quantidade de críticas negativas devido principalmente ao teor anarquista do filme. Porém ainda assim o longa teve uma boa aprovação no Rotten Tomatoes e conquistou vários fãs.

06. Corra, Lola, Corra – Tom Tykwer (1998)

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Mais um diretor que trabalhou posteriormente com as irmãs Wachowski. Não que aqui exista alguma referência ao trabalho dos idealizadores de Matrix, mas é possível identificar alguns pontos em comum, como a trilha sonora com um ar techno por exemplo.
Não se trata de um filme pesado, como se é comum pensar quando se fala em cinema alemão. A história que é recontada sequencialmente não o torna cansativo, muito pelo contrário, o ritmo do filme é exatamente como sugere o seu título.

Apesar de não se tratar de um filme premiado internacionalmente, o longa teve bastante prestígio, principalmente em seu país de origem sendo vencedor de vários prêmios de Cinema Alemão entre eles o de Melhor Diretor e Melhor Filme, além de ter se tornado uma referência dentro da cultura moderna do país. E também possuí uma ótima aprovação de 93% do Rotten Tomatoes.

07. O Labirinto do Fauno – Guillermo del Toro (2006)

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Fantasia e realidade se misturam com um pano de fundo histórico, a guerra civil espanhola. O diretor mexicano consegue imprimir sua marca mais uma vez, correlacionando seres fantásticos com vilões de carne e osso numa trama em que a personagem principal é uma garota órfã de pai que acaba se aventurando um um mundo mítico na busca de fugir de uma realidade cruel, a ditadura fascista, representada no filme pelo padastro da garota.

Se trata de uma fantasia mais sombria com toques surrealistas que agradou o público, inclusive um público que foge um pouco do gênero preferido do diretor que é o terror. Com uma aprovação de 95% no Rotten Tomatoes o longa, prestes a completar dez anos de seu lançamento, continua atual e muito bem comentado não só quando o assunto é diretores estrangeiros que fazem sucesso em Hollywood.

Vencedor do Oscar 2007 em três categorias, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Melhor Maquiagem, o filme também foi premiado com o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro no mesmo ano. Como também recebeu vários outros prêmios do cinema mundial, além de indicações entre elas à Palma de Ouro de melhor filme do Festival de Cannes em 2006.

08. Donnie Darko – Richard Kelly (2001)

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Um clássico cult, perfeitamente inserido na cultura Pop, o maior sucesso do diretor norte americano rendeu a ele a premiação de melhor filme de estréia em 2002 no Independent Spirit Awards. Mas também esse foi mais um daqueles filmes que só fizeram sucesso um tempo depois de seu lançamento.

Com uma atmosfera bem anos 80, coisa que eu particularmente amo, o filme acompanha os questionamentos de uma jovem esquizofrênico que tem alucinações com um coelho gigante monstruoso. Permeando isso ainda temos questionamentos políticos envolvendo sistema de educação, além de um prato cheio para quem gosta de ficção cientifica das boas. É um daqueles filmes que quando termina te deixa cheio de perguntas, talvez exatamente por isso tenha se tornado tão adorado pelos fãs de filmes Sci-Fi, que não economizam em teorias para tentar explicar o filme.

09. O Fabuloso Destino de Amelie Poulain – Jean-Pierre Jeunet (2001)

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Com uma atmosfera leve e romântica, mas sem deixar de ser cheio de simbolismos, o diretor francês fugiu do tom sombrio usando em filmes anteriores, como O Ladrão de Sonhos e Delicatessen, e agradou muito o grande público, inclusive àqueles que não estão muito habituados ao cinema francês. Com um nível de aprovação no Rotten Tomatoes mais alto que os outros filmes citados o longa recebeu várias indicações ao Oscar de 2002, entre elas o de melhor filme estrangeiro e melhor fotografia, infelizmente não levou nenhum dos prêmios, mas se tornou referência dentro da cultura pop.

A história da garçonete, que procura com pequenos gestos tonar mais feliz a vida das pessoas com as quais interage enquanto busca um grande amor, também costa na lista de melhores filmes de todos os tempos eleitos pela revista Empire.

10. Medianeras – Gustavo Taretto (2011)

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Outro filme com uma atmosfera bastante romântica, porém nem um pouco parecida com os clichês do gênero. Abordando temas muito atuais, como o distanciamento que passa a existir quando os contatos se tornam cada vez mais virtuais, o filme passeia pela arquitetura da cidade de Buenos Aires. É a rotina de uma grande cidade em que cada um está tão perdido e isolado em si mesmo que os encontros reais passam a ser quase tão difíceis quanto encontrar o Wally escondido na multidão. Um filme recheado de simbologias para a nossa vida moderna cada vez mais virtual a medida que todas as nossas relações passam a se basear em contatos virtuais e efêmeros, e em como essa suposta falta de contato real vai nos tornando cada vez mais medrosos e ainda mais isolados.

O longa surgiu a partir de um curta e foi premiado apenas no Festival de Gramado (2011) como Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Diretor.


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“Como Se Gera Um Desculpante.”

Se desculpar fazendo um mea culpa, se justificando e se dizendo um ser humilde que procura corrigir suas falhas a caminho da iluminação acreditando que o pedido de desculpas expresso por si só já está fazendo esse trabalho, é fácil . Agora se desculpar pura e simplesmente, sem escudos e sem tentar se justificar para fazer parecer que só se errou por conta de uma situação criada pelo outro tomando pra si toda a responsabilidade pelas próprias ações e assumindo internamente que se errou por conta de um defeito que não procuramos corrigir, é complicadinho, né?

Na minha experiência vejo que o problema com o primeiro caso é que acabo gerando uma espécie de auto engano e criando um ciclo vicioso onde erro, me justifico e me desculpo, e volto a errar outra vez. Desse jeito acabei me percebendo como alguém que vive se desculpando. Sob uma falsa humildade admito que errei, mas procuro justificativas para desviar o olhar da verdadeira causa do erro, que está em mim e não na atitude do outro. Dessa forma o pedido de desculpas serve, antes de qualquer coisa, para criar um jeito de conseguir olhar para mim mesma com a consciência tranquila.

Isto não pretende ser um postulado sobre humildade e a essência do verdadeiro perdão, até porque acho perdão uma palavra um pouco exagerada aqui. Estou falando das minhas percepções pessoais sobre situações de conflito corriqueiras e sobre como tenho percebido que muitas vezes me apreso em me desculpar, e, principalmente, me justificar por uma falha; me acreditando humilde por admitir o meu erro quando na verdade só estou me esquivando da responsabilidade pessoal de mudança com as justificativas que acompanham o pedido de desculpas. E percebo que isso não acontece só comigo.

Não gosto muito de usar estes termos por acreditar que criam um território onde se deve pisar com bastante cuidado, mas acredito que aqui falar de identificação com ego sintetiza bem onde estou querendo chegar. Quando me apreso em me desculpar depois de uma falha leve, ou até mesmo um pouco mais grave, percebo que é como se estivesse apenas desviando o olhar de uma parte feia minha. Uma parte que não sabe respeitar os limites do outro, não sabe reconhecer quando o outro está se esforçando para fazer algo bom e eu estou apenas exigindo perfeição ou algo que naquele momento não é possível. Uma parte cheia de defeitos com a qual o ego não gosta de lidar.

Pode ser até que o pedido de desculpas torne as coisas, aparentemente, harmônicas novamente. Também não tô dizendo que se desculpar depois de uma falha não traga certa parcela de nobreza. Mas também pode trazer uma falsa humildade. O problema que quero sinalizar é quando o pedido de desculpas vem apenas como algo pro forma para que a gente, ou o nosso ego, se livre daquele peso de ter que olhar para os próprios defeitos, se livre de ter de lidar com nosso querido monstrinho interno.

Tenho discernimento para identificar o que é aceitável ou não num comportamento social, mas não tenho força moral suficiente para modificar de fato meus padrões internos, assim admito externamente a falha, mas ao mesmo tempo desvio o olhar da causa dela. Assim se erra, pede-se desculpas, o ego fica tranquilinho novamente e não se encarra o que precisa ser mudado, o que realmente faz com que os erros aconteçam; e eles acontecem outra vez. O pedido de desculpas, por mais sincero que acreditamos estar sendo, serve apenas para aliviar nosso sentimento de culpa nesse caso, para confortar nosso ego.

Se autoflagelar se consumindo num sentimento de culpa, a partir deste meu ponto de vista, é só outro lado do que arisquei chamar aqui de identificação com o ego; é o ego se punindo publicamente para que se tenha piedade dele, o ponto não é esse. Deixar de pedir desculpas apresadamente, e da boca pra fora de uma determinada forma, para mim passa por me fazer olhar para os meus defeitos; analisar minhas fraquezas e admiti-las como uma parte desagradável, mas minha, e que cabe a mim transformar; ter em mente que não importa qual foi a atitude do outro, se eu agi mal isso diz respeito a um padrão de comportamento meu. E isso tudo faz com que o ego precise sair da sua posição de conforto.

Admitir que errei sem me alongar em justificativas ou alegando que o outro provocou uma reação exagerada em mim, mas, ao contrário disso, tomando para mim a responsabilidade do meu deslize, não afaga o ego, ou aquela parte minha que se esquiva do trabalho de aparar as próprias arestas. Mesmo com a situação externa apaziguada depois das desculpas ainda me resta o exercício solitário de procurar mecanismos para lidar com meus defeitos e me tornar mais tolerante, mais consciente quanto aos limites e limitações dos outros. Sem explodir eu extrapolar quando o outro não corresponde àquilo que eu esperava, sem criar novos conflitos que me coloquem novamente numa situação onde preciso me desculpar por algo que fiz ou falei.

E é este o ponto, enquanto o pedido atropelado e irrefletido de desculpas acaba se tornando algo feito só da boca pra fora através dos velhos hábitos do ego de não querer olhar para os próprios defeitos. Quando se tem consciência das próprias fraquezas e falhas a gente compreende que o que nos faz errar não é a atitude do outro que gera em nós uma reação desmedida, mas algo que sempre esteve com a gente. Reconhecemos que ferimos os sentimentos da outra pessoa, e as desculpas então se tornam sinceras para com os sentimentos dela e não para que desviemos o olhar daquilo que precisamos mudar em nós, e assumimos a nossa parcela de responsabilidade para que tenhamos relações mais harmoniosas.


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O Princípe da Névoa – Carlos Ruiz Záfon

O Carlos Ruiz Záfon é um dos meus escritos favoritos. Amo a narrativa, o modo como suas histórias são contadas e principalmente o ar sombrio de mistério que envolve todas essas histórias.

O primeiro livro do autor não deixa a desejar a nenhuma obra escrita por autores mais maduros. O texto é limpo e a narrativa corre em um ritmo agradável. Os pequenos defeitos contidos na obra não prejudicam em nada a leitura e, como explicou em nota, o autor preferiu preservar a obra tal como foi publicada na edição original, o que na minha opinião foi uma decisão cheia de sabedoria. Quando nos apaixonamos por um autor é muito gostoso ler obras escritas em diversos períodos de sua carreira e ir acompanhado o seu amadurecimento.

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Nesse romance juvenil o ar de mistério e a narrativa apaixonante não se fazem ausentes, e apesar de ser um tanto diferente de outros livros, como A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo e de ter sido escrito por um Záfon mais jovem, a narrativa única do autor é perceptível e capaz de prender o leitor desde a primeira página. Eu disse pra mim mesma que iria ler só o primeiro capítulo antes de dormir e acabei lendo o livro inteiro em apenas uma madrugada!

Com 180 páginas e capítulos relativamente curtos, a história de uma família com três filhos que se muda para uma cidade litorânea com o objetivo de fugir da guerra se desenrola com relativa rapidez. Ao chegar na nova cidade eles são recebidos por um gato aparentemente dócil e abandonado que, a contra gosto do restante da família, é imediatamente adotado pela filha caçula, Irina. Logo episódios estranhos começam a acontecer envolvendo o misterioso gato e a pequena Irina.

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A nova casa da família Carver havia sido construída para uma abastada família que depois de sua mudança acabou sendo vítima de várias e misteriosas tragédias e que ainda abriga e está rodeada por muitos deses mistérios. Como uma coleção de estranhos filmes caseiros que é encontrada pelo patriarca da família e acaba sendo explorada pelo jovem Max, filho do meio e personagem central da trama. Também desperta a atenção do jovem Max um bizarro jardim de estátuas abandonado nas proximidades da casa e que está sempre envolto por uma estranha névoa.

Em seu primeiro dia na nova cidade Max conhece um jovem nativo, Roland, que apresenta a ele a pequena cidade e alguns de seus mistérios, como um navio afundado que teve como único sobrevivente de seu naufrágio Víctor Kray, o avô adotivo de Roland, velho que com uma espécie de gratidão à sua sorte resolve construir na cidade um farol e guardar a costa como quem guarda a própria vida.

Logo uma sólida amizade é construída entre os dois e também Alicia, a filha mais velha da família Carver que desde a mudança da família vem sendo atormentada por pesadelos envolvendo um assustador palhaço, se junta à eles nas suas aventuras que a princípio são de apenas explorar a cidade e a praia. Posteriormente tal aventura se transforma numa verdadeira caça a uma inimigo antigo e poderoso assim como diabólico.

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A narrativa em terceira pessoa com alguns relatos em primeira pessoa do velho faroleiro Sr. Kray tem vários elementos comuns da narrativa do Záfon, como o pano de fundo envolvendo guerras, que aqui apesar de não estar explícito creio se tratar da segunda guerra mundial.

O livro escrito em 1993 faz parte de uma série infanto-juvenil composta por mais dois livros, O Palácio da Meia-Noite e As Luzes de Setembro. Apesar de ser classificado dessa forma o livro não se restringe a esse público podendo agradar jovens de todas as idades, assim como diz o próprio autor em nota.

Para quem deseja conhecer esse autor espanhol capaz de despertar paixões, recomendo fortemente a leitura desse livro. Com uma leitura mais rápida e menos densa que as publicações mais recentes do autor essa obra é um ótimo começo.


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Não Tá Fácil Existir – Die Woche #4

Tanta coisa acontecendo, lá fora e aqui dentro, que não tenho se quer conseguido encontrar boas palavras para ordenar ao menos o caos interno, mas ainda assim sinto mais que nunca que preciso permanecer firme nos meus próprios pés. Então acho justo tentar algumas palavras, talvez não para tornar as coisas mais leves, porque em certos momentos isso tem me parecido impossível, a nível pessoal e coletivo. E sabe, às vezes não tem como esperar leveza mesmo, às vezes a única coisa que resolve é o enfrentamento. Este agora é um desses às vezes.

Se escrevo é numa tentativa de não me perder, creio que cada registro meu aqui é algo como migalhas de pão que vou deixando pelo caminho. Mas em tempos onde se ter uma opinião e uma rede social são os únicos requisitos para que tal opinião seja expressa, sem passar previamente por nenhuma espécie de filtro, sempre preferi me manter em silêncio sobre a maioria dos assuntos. Mesmo que às vezes a ideia de um ou outro post mais “polêmico” me passe pela cabeça, logo afasto tal ideia; pelo bem do meu sistema digestivo que reclama à menor ameaça de stress, mas também por nunca ter de fato me sentido como parte existente do mundo onde todos os problemas e assuntos estão se desenrolando.

Deixa ver se consigo explicar porque me parece algo bastante ruim dizer apenas que nada do que acontecia neste mundão me afetava; não é bem isso, mas também não deixa de ser, sendo muito pelo contrário. Sempre me senti de certa forma culpada por me preocupar com coisas que estavam acontecendo fora da redoma onde fui criada e de todo o excesso de proteção que em certos momentos me foram tão confortáveis.

Era como se fosse receber olhares de desaprovação se ousasse me manifestar sobre algum assunto maior do que o emaranhado de problemas do meu mundinho; já que não conseguia me entender se quer com esses problemas me achava pequena demais pra lidar com questões abrangentes. E muitas vezes a ideia de ter se quer um posicionamento diante do que tá acontecendo no mundo me parecia muita pretensão. É mais ou menos o extremo oposto de quem sai por aí dizendo tudo o que pensa só porque tem uma rede social, até eu perceber que ter opinião nenhuma é tão ruim quanto ter opinião demais.

De dentro da minha redoma eu julgava as minhas dores fruto de casos isolados também, casos de responsabilidade única e exclusiva minha. Assumia inteiramente a culpa por elas e me esquecia de perceber que tais dores viam de desajustes no coletivo, leia-se sociedade, e me culpar pessoalmente por elas era exatamente corresponder ao que tal sistema doente está esperando. O irônico é que nesse processo me tornei algoz de mim mesma, e algoz sendo vítima enquanto ainda era acusada de vitimismo e me via obrigada a calar sobre o que realmente me faz doer e aceitar que estava sofrendo por gosto de bancar a vítima do mundo; mundo esse gentil e justo, claro.

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Cheguei num ponto do meu processo de autoconhecimento onde começo a engatinhar pra fora da redoma da qual falei anteriormente. E não deve ser apenas coincidência que isso esteja acontecendo justo num momento onde parece que sacudiram o tapete onde se escondia por debaixo toda a sujeira do mundo; porque não creio que nada do que está acontecendo seja novo, não é, só estava sendo muito bem varrido para debaixo do tapete.

Uma das coisas que passei a perceber em certo ponto dessa minha jornada interna foi o quanto me sentia alheia ao mundo ao meu redor. Nunca senti pertencimento, seja em que nível for. É como se eu tivesse mergulhado tão fundo na minha introversão que já não havia ponte alguma me ligando de fato ao mundo exterior. Eu não existia fora de mim. Engatinhar para fora da minha redoma é como passar a existir de verdade num mundo real; e existir de verdade num mundo real tão fora de ordem que ninguém sabe mais onde pisar não é fácil, meu sistema digestivo realmente está tendo dificuldades de lidar com isso.

Estou aprendendo a pertencer e existir neste mundo entendendo e sentindo que a dor do outro também me toca e desperta em mim dores semelhantes; essas minhas, não do outro, mas tão parecidas com as dele que é impossível não compreender que só o pertencimento e a luta coletiva podem fazer algo, não para que essa dor pare de latejar a nível individual, mas para que ela não se perpetue e se repita ad infinitum reavivando as feridas individuas a cada novo golpe.

Não tá fácil existir, não tá mesmo, mas existir e resistir me parece melhor do que me perder sozinh em mim mesma.

Segue o eco, a imagem refletida do possível e esquecido: a possibilidade e necessidade de falar e escutar. Não o eco que se apaga paulatinamente ou a força que decresce depois de seu ponto mais alto. Sim o eco que rompe e continua. O eco do próprio pequeno, o local e particular, reverberando no eco do próprio grande, o intercontinental e galáctico. O eco que reconheça a existência do outro e não pisoteie ou intente a calar o outro. O eco que tome seu lugar e fale sua própria voz e fale a voz do outro. O eco que reproduza o próprio som e se abra ao som do outro. O eco desta voz rebelde transformando-se em outras vozes. Um eco que se converte em muitas vozes, numa rede de vozes que, frente à surdina do poder, opte por falar-se ela mesma sabendo-se uma e muitas, conhecendo-se igual em sua aspiração de escutar e fazer escutar, reconhecendo-se diferentemente nas tonalidades e níveis de vozes que a formam.

Crónicas Intergalácticas – Subcomandante Insurgente Marcos


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