“Como Se Gera Um Desculpante.”

Se desculpar fazendo um mea culpa, se justificando e se dizendo um ser humilde que procura corrigir suas falhas a caminho da iluminação acreditando que o pedido de desculpas expresso por si só já está fazendo esse trabalho, é fácil . Agora se desculpar pura e simplesmente, sem escudos e sem tentar se justificar para fazer parecer que só se errou por conta de uma situação criada pelo outro tomando pra si toda a responsabilidade pelas próprias ações e assumindo internamente que se errou por conta de um defeito que não procuramos corrigir, é complicadinho, né?

Na minha experiência vejo que o problema com o primeiro caso é que acabo gerando uma espécie de auto engano e criando um ciclo vicioso onde erro, me justifico e me desculpo, e volto a errar outra vez. Desse jeito acabei me percebendo como alguém que vive se desculpando. Sob uma falsa humildade admito que errei, mas procuro justificativas para desviar o olhar da verdadeira causa do erro, que está em mim e não na atitude do outro. Dessa forma o pedido de desculpas serve, antes de qualquer coisa, para criar um jeito de conseguir olhar para mim mesma com a consciência tranquila.

Isto não pretende ser um postulado sobre humildade e a essência do verdadeiro perdão, até porque acho perdão uma palavra um pouco exagerada aqui. Estou falando das minhas percepções pessoais sobre situações de conflito corriqueiras e sobre como tenho percebido que muitas vezes me apreso em me desculpar, e, principalmente, me justificar por uma falha; me acreditando humilde por admitir o meu erro quando na verdade só estou me esquivando da responsabilidade pessoal de mudança com as justificativas que acompanham o pedido de desculpas. E percebo que isso não acontece só comigo.

Não gosto muito de usar estes termos por acreditar que criam um território onde se deve pisar com bastante cuidado, mas acredito que aqui falar de identificação com ego sintetiza bem onde estou querendo chegar. Quando me apreso em me desculpar depois de uma falha leve, ou até mesmo um pouco mais grave, percebo que é como se estivesse apenas desviando o olhar de uma parte feia minha. Uma parte que não sabe respeitar os limites do outro, não sabe reconhecer quando o outro está se esforçando para fazer algo bom e eu estou apenas exigindo perfeição ou algo que naquele momento não é possível. Uma parte cheia de defeitos com a qual o ego não gosta de lidar.

Pode ser até que o pedido de desculpas torne as coisas, aparentemente, harmônicas novamente. Também não tô dizendo que se desculpar depois de uma falha não traga certa parcela de nobreza. Mas também pode trazer uma falsa humildade. O problema que quero sinalizar é quando o pedido de desculpas vem apenas como algo pro forma para que a gente, ou o nosso ego, se livre daquele peso de ter que olhar para os próprios defeitos, se livre de ter de lidar com nosso querido monstrinho interno.

Tenho discernimento para identificar o que é aceitável ou não num comportamento social, mas não tenho força moral suficiente para modificar de fato meus padrões internos, assim admito externamente a falha, mas ao mesmo tempo desvio o olhar da causa dela. Assim se erra, pede-se desculpas, o ego fica tranquilinho novamente e não se encarra o que precisa ser mudado, o que realmente faz com que os erros aconteçam; e eles acontecem outra vez. O pedido de desculpas, por mais sincero que acreditamos estar sendo, serve apenas para aliviar nosso sentimento de culpa nesse caso, para confortar nosso ego.

Se autoflagelar se consumindo num sentimento de culpa, a partir deste meu ponto de vista, é só outro lado do que arisquei chamar aqui de identificação com o ego; é o ego se punindo publicamente para que se tenha piedade dele, o ponto não é esse. Deixar de pedir desculpas apresadamente, e da boca pra fora de uma determinada forma, para mim passa por me fazer olhar para os meus defeitos; analisar minhas fraquezas e admiti-las como uma parte desagradável, mas minha, e que cabe a mim transformar; ter em mente que não importa qual foi a atitude do outro, se eu agi mal isso diz respeito a um padrão de comportamento meu. E isso tudo faz com que o ego precise sair da sua posição de conforto.

Admitir que errei sem me alongar em justificativas ou alegando que o outro provocou uma reação exagerada em mim, mas, ao contrário disso, tomando para mim a responsabilidade do meu deslize, não afaga o ego, ou aquela parte minha que se esquiva do trabalho de aparar as próprias arestas. Mesmo com a situação externa apaziguada depois das desculpas ainda me resta o exercício solitário de procurar mecanismos para lidar com meus defeitos e me tornar mais tolerante, mais consciente quanto aos limites e limitações dos outros. Sem explodir eu extrapolar quando o outro não corresponde àquilo que eu esperava, sem criar novos conflitos que me coloquem novamente numa situação onde preciso me desculpar por algo que fiz ou falei.

E é este o ponto, enquanto o pedido atropelado e irrefletido de desculpas acaba se tornando algo feito só da boca pra fora através dos velhos hábitos do ego de não querer olhar para os próprios defeitos. Quando se tem consciência das próprias fraquezas e falhas a gente compreende que o que nos faz errar não é a atitude do outro que gera em nós uma reação desmedida, mas algo que sempre esteve com a gente. Reconhecemos que ferimos os sentimentos da outra pessoa, e as desculpas então se tornam sinceras para com os sentimentos dela e não para que desviemos o olhar daquilo que precisamos mudar em nós, e assumimos a nossa parcela de responsabilidade para que tenhamos relações mais harmoniosas.


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