Não Tá Fácil Existir – Die Woche #4

Tanta coisa acontecendo, lá fora e aqui dentro, que não tenho se quer conseguido encontrar boas palavras para ordenar ao menos o caos interno, mas ainda assim sinto mais que nunca que preciso permanecer firme nos meus próprios pés. Então acho justo tentar algumas palavras, talvez não para tornar as coisas mais leves, porque em certos momentos isso tem me parecido impossível, a nível pessoal e coletivo. E sabe, às vezes não tem como esperar leveza mesmo, às vezes a única coisa que resolve é o enfrentamento. Este agora é um desses às vezes.

Se escrevo é numa tentativa de não me perder, creio que cada registro meu aqui é algo como migalhas de pão que vou deixando pelo caminho. Mas em tempos onde se ter uma opinião e uma rede social são os únicos requisitos para que tal opinião seja expressa, sem passar previamente por nenhuma espécie de filtro, sempre preferi me manter em silêncio sobre a maioria dos assuntos. Mesmo que às vezes a ideia de um ou outro post mais “polêmico” me passe pela cabeça, logo afasto tal ideia; pelo bem do meu sistema digestivo que reclama à menor ameaça de stress, mas também por nunca ter de fato me sentido como parte existente do mundo onde todos os problemas e assuntos estão se desenrolando.

Deixa ver se consigo explicar porque me parece algo bastante ruim dizer apenas que nada do que acontecia neste mundão me afetava; não é bem isso, mas também não deixa de ser, sendo muito pelo contrário. Sempre me senti de certa forma culpada por me preocupar com coisas que estavam acontecendo fora da redoma onde fui criada e de todo o excesso de proteção que em certos momentos me foram tão confortáveis.

Era como se fosse receber olhares de desaprovação se ousasse me manifestar sobre algum assunto maior do que o emaranhado de problemas do meu mundinho; já que não conseguia me entender se quer com esses problemas me achava pequena demais pra lidar com questões abrangentes. E muitas vezes a ideia de ter se quer um posicionamento diante do que tá acontecendo no mundo me parecia muita pretensão. É mais ou menos o extremo oposto de quem sai por aí dizendo tudo o que pensa só porque tem uma rede social, até eu perceber que ter opinião nenhuma é tão ruim quanto ter opinião demais.

De dentro da minha redoma eu julgava as minhas dores fruto de casos isolados também, casos de responsabilidade única e exclusiva minha. Assumia inteiramente a culpa por elas e me esquecia de perceber que tais dores viam de desajustes no coletivo, leia-se sociedade, e me culpar pessoalmente por elas era exatamente corresponder ao que tal sistema doente está esperando. O irônico é que nesse processo me tornei algoz de mim mesma, e algoz sendo vítima enquanto ainda era acusada de vitimismo e me via obrigada a calar sobre o que realmente me faz doer e aceitar que estava sofrendo por gosto de bancar a vítima do mundo; mundo esse gentil e justo, claro.

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Cheguei num ponto do meu processo de autoconhecimento onde começo a engatinhar pra fora da redoma da qual falei anteriormente. E não deve ser apenas coincidência que isso esteja acontecendo justo num momento onde parece que sacudiram o tapete onde se escondia por debaixo toda a sujeira do mundo; porque não creio que nada do que está acontecendo seja novo, não é, só estava sendo muito bem varrido para debaixo do tapete.

Uma das coisas que passei a perceber em certo ponto dessa minha jornada interna foi o quanto me sentia alheia ao mundo ao meu redor. Nunca senti pertencimento, seja em que nível for. É como se eu tivesse mergulhado tão fundo na minha introversão que já não havia ponte alguma me ligando de fato ao mundo exterior. Eu não existia fora de mim. Engatinhar para fora da minha redoma é como passar a existir de verdade num mundo real; e existir de verdade num mundo real tão fora de ordem que ninguém sabe mais onde pisar não é fácil, meu sistema digestivo realmente está tendo dificuldades de lidar com isso.

Estou aprendendo a pertencer e existir neste mundo entendendo e sentindo que a dor do outro também me toca e desperta em mim dores semelhantes; essas minhas, não do outro, mas tão parecidas com as dele que é impossível não compreender que só o pertencimento e a luta coletiva podem fazer algo, não para que essa dor pare de latejar a nível individual, mas para que ela não se perpetue e se repita ad infinitum reavivando as feridas individuas a cada novo golpe.

Não tá fácil existir, não tá mesmo, mas existir e resistir me parece melhor do que me perder sozinh em mim mesma.

Segue o eco, a imagem refletida do possível e esquecido: a possibilidade e necessidade de falar e escutar. Não o eco que se apaga paulatinamente ou a força que decresce depois de seu ponto mais alto. Sim o eco que rompe e continua. O eco do próprio pequeno, o local e particular, reverberando no eco do próprio grande, o intercontinental e galáctico. O eco que reconheça a existência do outro e não pisoteie ou intente a calar o outro. O eco que tome seu lugar e fale sua própria voz e fale a voz do outro. O eco que reproduza o próprio som e se abra ao som do outro. O eco desta voz rebelde transformando-se em outras vozes. Um eco que se converte em muitas vozes, numa rede de vozes que, frente à surdina do poder, opte por falar-se ela mesma sabendo-se uma e muitas, conhecendo-se igual em sua aspiração de escutar e fazer escutar, reconhecendo-se diferentemente nas tonalidades e níveis de vozes que a formam.

Crónicas Intergalácticas – Subcomandante Insurgente Marcos


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