“Não ligue, não ouça, são pontos de interrogação.”

bertil_nilsson
Foto: Bertil Nilsson

Você não percebeu estar perto de uma pessoa machucada? Você não viu meus cortes? Minhas marcas? Eu deixei que você as sentisse com as pontas dos dedos. Eu deixei. Eu permiti.

Eu já não sei se fui eu que te convidei pra entrar ou se simplesmente permiti que você entrasse e visse toda a bagunça ao redor; não tentei esconder, nem pedi pra não reparar. Você reparou?

Não houve invasão, não houve arrombamentos, não foi preciso se prestar queixa, não houveram lamúrios nem súplicas. E as lágrimas que houveram eram antigas. Tão antigas e tão pesadas. Você sentiu o peso? Você ouviu as histórias mudas que chorei já sem quase mais conseguir fazer silêncio? Você ouviu meus berros há tanto silenciados capazes de acordar uma cidade inteira? Você sentiu a explosão?

Você falou que era preciso arrancar de uma só vez os curativos das feridas antigas. Você falou ou eu sonhei?

Você viu as feridas? Antigas, abertas, inflamadas, abafadas sem possibilidade de cura embaixo de tantos vícios imaturos; esses curativos precários, mas foi o melhor que encontrei para estancar cortes profundos que caso contrário poderiam ter me matado. E isso não é figura de linguagem.

Você já esfolou um joelho? Já teve que cuidar de algum machucado que não cicatrizava? Um talho no dedo? Uma queda de bicicleta? Um acidente de percurso? Uma queimadura talvez?

Cuidar de feridas antigas e negligenciadas dói. Dói mais que a própria dor em si.
Você me entende?
Acho que não.
Você precisa limpar a ferida, limpar o sangue antigo incrustado, drenar o pus, desinfetar, sentir arder. Aí você percebe a profundidade do corte, você precisa procurar ajuda.
Mas não tem ajuda.

Dói mais que a dor em si.

Repetir diariamente todo o processo, limpar, desinfetar, drenar. A ferida vai fechado, mas você precisa olhar diariamente pra aquele seu pedaço exposto de carne viva.

Até que se forme uma cicatriz grosseira, que ainda será dolorida. Mas eu acho que ainda não cheguei nesse estágio.

Sabe quando todos os objetos pelo caminho insistem em ir de encontro a um machucado recente?

De vez em quando esbarro sem querer em alguma lembrança que não deveria. Quase sempre é em você. E a ferida lateja, às vezes sangra.
Agora está sangrando.
Você viu o sangue escorrendo em cada uma destas linhas?


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