Mãe, uma palavra que nunca deixará de significar amor.

Faz tempo que tenho a ideia de escrever esse texto, chegou o momento mais que apropriado dele começar a existir. Mas, espera, não faço a menor ideia do que escrever nele. Nunca fui muito boa nisso de escrever sobre minhas relações familiares, mesmo que escreva muito desde sempre para tentar abrandar os conflitos dessas relações. Agora tenho que escrever, mas a página em branco me intimida, não quero falar sobre conflitos… acho que já comecei meio errado.

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Realmente não quero falar sobre relações complicadas, mas talvez deva pela primeira vez ser honesta com relação aos vínculos que não foram criados entre eu e minha mãe e também com relação àqueles que se mantêm com certas dificuldades. Talvez não seja algo tão entusiasmante para ela ler sobre isso nesse dia, mas prometo que o objetivo aqui não são acusações. Quero através das palavras me fazer compreender na minha crença de que falando transparentemente sobre aquilo que tememos podemos chegar a algo bom. Espero obter sucesso nessa missão.

Pra começar nunca vivemos como uma família de fato, nunca convivi com meu pai e morei com minha mãe só até os cinco anos, cinco anos e meio pra ser bem exata como ela, minha mãe, sempre faz questão de ser. Poderia dizer que durante esse tempo ela foi pra mim mãe e pai, como certamente foi e certamente continua sendo, mas as memórias que tenho dessa época são quase nulas. Me lembro bem, porém, do dia que ela me contou que viajaria, trouxe pra mim um fogãozinho de plástico e disse que iria para São Paulo. Mãe, desculpa se tô poetizando demais esses fatos, mas é assim que me lembro deles. Alguma coisa me fez achar que havia muita tristeza pra pouca distância. Eu tinha cinco anos, e os seis meses a mais também não me davam esse crédito todo pra saber sobre tristeza e distância, mas pois é, eu sabia, de alguma forma eu sabia que a distância que se estabeleceria entre nos duas seria muito maior.

Lembro que me acordaram cedo no dia da despedida, e lembro que fazia mais frio do que é possível de fato fazer nesses lados de cá. Lembro que chorei e devo ter pegado no sono outra vez achando que era tudo só um sonho. Não me lembro como foi quando acordei, mas tenho certeza de que chorei. E chorei durante a copa de 94 inteira, disso me lembro bem e até hoje me pergunto por que o Brasil não perdeu aquela copa, foi a primeira vez que percebi minha tristeza contrastando com a felicidade geral da nação, pouco tempo tinha se passado e eu já sabia um tanto a mais sobre tristeza. Não lembro mais de muitos fatos concretos da minha infância desde então, lembro que em algum momento aprendi a escrever e aprendi a escrever cartas, lembro que passei a entender muito bem o conceito de saudade, aprendi também um bocado sobre tempo, afinal era ele que tinha de ser vencido para que pudéssemos ficar juntas outra vez, aprendi a esperar. E comecei a sonhar em ser poetiza. Te escrevi poemas durante a minha espera, mãe, sobre saudade e sobre tempo, você se lembra?

Sei que ela esperou por mim durante nove meses. Também esperei por ela durante alguns anos e acabei aprendendo a chamar e ver outras pessoas como mãe, algo que aconteceu de uma forma inconsciente e um tanto desconfortável para todas as partes envolvidas, o que não significa que em momento algum ela tenha deixado de ser a minha mãe. E nem eu deixei de tentar ser uma garota forte, mesmo com toda a saudade que sentia. Não foi ela quem me ajudou a estudar paras as primeiras provas do colégio, nem foi ela quem curou os arranhões que eu conquistava andando de bicicleta, mas foi graças a ela que eu pude ser uma das melhores alunas da sala, foi graças a ela que eu aprendi a andar de bicicleta. Mesmo longe ela continuo sendo mãe, e também pai.

Muitas coisas aconteceram durante todos esses anos, muitas delas não cabem nessas linhas. A distância ainda existe, aprendi a ser filha via Embratel e sei que também não deve ter sido muito fácil pra ela ter aprendido a ser mãe via Internet. Por mais que dessa forma tenha sido possível estarmos presente uma na vida da outra de uma certa forma, certas conexões não acontecem via impulsos telefônicos, certos vínculos não se criam virtualmente. Tenho que confessar que em muitos momentos fez, e ainda faz, falta um ombro, um colo, um abraço, ali em silêncio sem que o excesso de palavras seja necessário para acalmar e transmitir carinho e confiança. Sei que ela, a minha mãe, nunca se ausentou da minha vida, mas a distância, que acabei descobrindo ser muito maior do que imaginava lá nos meus cinco anos e meio, trouxe também um paradoxo, mesmo longe ela ainda era presente, mas mesmo sendo presente ainda faltava alguma coisa.

Gostaria de poder recuperar todas essas coisas que faltaram, os abraços que não foram dados ou recebidos, os beijos de boa noite que não existiram e a certeza de que tudo ficaria bem, depois da primeira desilusão amorosa, que só o aconchego de mãe é capaz de transmitir. Mas não tenho esse poder, assim como não tenho o poder de apagar todas as lágrimas desperdiçadas e as palavras ditas em hora errada, tivemos tão pouco para nos manter ligadas, praticamente as palavras eram tudo o que tínhamos e muitas vezes elas traíram quando tudo que era necessário era o carinho e a presença.

Disse que queria tirar algo bom disso tudo e fazer com que toda essa recapitulação não sirva apenas para despertar lembranças não muito agradáveis. Sei que não tenho o poder de voltar no tempo, sei que tudo o que me resta é fazer o melhor que posso fazer, enquanto filha, dos momentos que virão. Sendo assim, sei que me tornar adulta nunca irá significar recusar um colo de mãe sempre que tiver a oportunidade de tê-lo, em certos momentos da vida temos a ideia boba de achar que amadurecer signifique isso.

Reconheço tudo o que ela fez por mim e continua fazendo, sendo mãe e pai quando as figuras que deveriam ser paternas só fizeram o impossível para dificultar a frágil relação de mãe e filha que aos trancos trouxemos até aqui.
Reconheço o quão difícil deve ter sido também pra ela, enquanto mãe, ser mãe por carta, telefone e internet e acalmar um bebê birreto virtualmente.

Mãe, não sou nada boa com declarações, nunca sei ao certo o que dizer, talvez não tenha escolhido a melhor forma de te parabenizar pelo seu dia, só quero que saiba o quanto você é importante pra mim, não apesar da nossa história um tanto complicada, mas exatamente por ela. Nossa história é única, assim como nosso vínculo que enfrentou tantos obstáculos para continuar existindo.

Parabéns pelos seus acertos mesmo quanto tudo estava errado, são eles que realmente importam. Parabéns pela mãe, mulher e pessoa que você é. Te amo e quero ser sua filha, sua amiga. Feliz dia das mães.


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