Reflexões dominicais: Na Natureza Selvagem

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O filme me fez refletir sobre assuntos muito pontuais que permeiam nossas vidas. O medo da solidão, a dificuldade de criar vínculos sem que esses se transformem em amarras, o medo de viver novas experiências, a necessidade de agradar ao outro e se encaixar em padrões. E também me levou muito além desses pontos me fazendo pensar sobre como estamos mandando nossa individualidade às favas ao ponto de crermos ser egoísmo alguém seguir seu rumo tendo como bússola seus próprios desejos e prioridades.

Lendo comentários sobre o filme, internet à fora, vi muita gente compartilhar da opinião de que a liberdade que o personagem tanto busca seria esgotada a partir do momento em que ele começa a criar laços por onde passa. Li outros comentários que diziam que o personagem foi simplesmente imaturo e egoísta em suas decisões. Deixando o personagem e seus extremos um pouquinho de lado, eu me pergunto quando foi que criar laços passou a ser o contrário de ser livre. Ou será que devo, na verdade, me perguntar quando passamos a confundir criar laços com se acorrentar? Também me pergunto, ainda deixando de lado os extremos aos quais chegou o Supertramp na sua busca por liberdade e autoconhecimento, como insistimos em dizer que é egoísmo alguém seguir em busca daquilo que deseja, e acredita ser o melhor para si, se estamos constantemente reclamando da mídia, da sociedade, dos nossos pais e parceiros que querem, todos eles, impor a sua vontade sobre a nossa. Buscar aquilo que acreditamos ser o melhor pra nos se torna egoísmo quando essa busca contraria alguns padrões que querem nos enfiar goela a baixo?

Podemos discordar da escolha do outro, mas acredito que estamos perdendo um pouco a mão no que diz respeito ao livre arbítrio achando que podemos julgar as escolhas desse outro de acordo com os nossos próprios padrões de bom e ruim, certo e errado, aceitável e insano.  Estamos perdidos com tantos dedos em riste apontando para nós e nos dizendo em quais padrões devemos caber que passamos a chamar de egoísta quem se liberta dos padrões do outro e passa a viver de acordo com seus próprios padrões? Não sei.

“Você sabe, falo de livrar-se desta sociedade doente… Sabe o que eu não entendo? Porque as pessoas, todas as pessoas, são sempre tão más umas com as outras. Não faz sentido. Julgamento. Controle. Todas estas coisas…”

Acredito que egoísmo é querer que o outro aja da forma que nos julgamos ser a correta, mas no final das contas apontamos o dedo e chamamos de egoísta quem frustra as nossas expectativas e vai viver por sua conta e risco seguindo aquilo que acredita ser correto. Queremos que o outro viva para corresponder as nossas expectativas porque o amamos e queremos o seu melhor, porque criamos laços que não podem ser desfeitos pelo fato de cada um seguir sua vida da maneira que bem entende. Quase não sabemos mais criar laços sem que esse se transformem em amarras. Sentimos a necessidade de nos moldarmos, e muitas vezes modificamos nossos ideais e desejos, para sermos aceitos pelo outro, para que ele não nos abandone. Em contra partida exigimos o mesmo em troca. Daí fica fácil chamar de egoísta alguém que não esteja disposto a abrir mão daquilo que almeja em nome da vontade de um parceiro ou familiar.

“Você não precisa de relacionamento humano para ser feliz, Deus colocou tudo
à nossa volta.”

No entanto é possível criar laços sem que esses se transformem em amarras, e na minha opinião é isso que é mostrado no filme. A forma como aquele viajante solitário consegue tocar a vida de cada uma daquelas pessoas e depois seguir seu caminho não deixando para trás um rastro de mágoas, coisa que normalmente acontece quando expectativas estão envolvidas. Obviamente não estou falando aqui da relação do protagonista com seus pais, isso já renderia assunto pra um outro texto, mas sim daqueles que ele encontra pelo caminho. Aqueles que desfrutam da presença daquele viajante por alguns momentos desejam sim que ele permaneça ali por perto, mas pra mim foi encantador ver como eles aceitam sua partida mesmo que isso machuque um pouquinho seus corações e como a passagem do Supertramp na vida de cada uma daquelas pessoas consegue trazer a elas um pouquinho mais de luz.

Talvez se deixássemos de tentar corresponder ao que o “os outros” esperam de nós e nos permitíssemos viver de acordo com a nossa própria verdade e buscando aquilo que lá no fundo sabemos ser o melhor para nos, mesmo quando isso contraria os padrões rigidamente estabelecidos do que cada um deve querer para si, conseguíssemos nos relacionar de uma forma mais saudável.

Quando encontramos a nossa própria verdade, aquilo que realmente faz com que continuemos nos movendo na vida, ou quando pelo menos estamos realmente comprometidos na busca por essa verdade, passamos a compreender e aceitar o fato de que os outros também merecem viver de acordo com suas verdades individuais, não tentamos interferir em suas buscas por aquilo que os motiva. Então somos capazes de nos despir de nosso egoísmo e necessidade de controle da vida alheia, não precisamos fazer chantagens, não entregamos nossa promessa de felicidade nas mãos de outra pessoa e não temos mais porque acusá-la de estar sendo egoísta em não corresponder àquilo que esperávamos delas.

Ao procuramos cada um a nossa própria felicidade passamos a sentir prazer em criar laços e compartilhar com cada pessoa que passa pela nossa vida essa felicidade. Sem perder assim nossa liberdade, sem criar expectativas ou amarras. Compartilhamos aquilo que temos de bom, aprendemos o que o outro pode nos ensinar e seguimos nossas vidas ainda mais ricos de afetos e experiências.

“A felicidade só é verdadeira quando compartilhada”.


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