Pensamentos soltos de um quase verão chuvoso

Uma saudade insuportável de cada pedacinho meu que fui deixando pelo caminho. Cada detalhe, sonho, desejo, vontade, capricho, defeitos e qualidades que fui arrancando de mim. Em busca de alento, segurança ou qualquer coisa que fosse boa o suficiente pra me prender e me fazer querer ver o mundo todos os dias através da mesma janela. E eu queria ser boa, queria ser apenas boa o suficiente pra caber na felicidade medíocre que todos me diziam que era o certo querer.

E o tempo foi passando e o mundo foi rodando.  E eu fui rodando com o mundo. Sem precisar parar. Sem precisar de muito além de duas malas para fazer caber minha vida. Se os dias ficavam demasiadamente cinzentos, não era nada que um bom livro, um novo corte de cabelo ou um novo endereço não resolvessem. Mesmo que um endereço provisório. Qualquer lugar que eu vivesse e morresse um pouquinho e depois partisse.

Não sei mais dizer quantas vezes cruzei um oceano e a única tristeza que residi nisso é ver meus olhos tão vazios como se tivessem fitado apenas essas paredes desse purgatório que me encontro durante uma vida inteira. Houve um tempo que não existia amor, dor ou tormento que uma passagem de avião não curasse. E assim fui vivendo aos atropelos, colecionando nomes de cidades e me perdendo em ruas desconhecidas por prazer, até doer. Então procurava outras ruas para me esconder.

Nunca precisava revisar a última história ou organizar cronologicamente os lugares pelos quais passei. As cicatrizes que arrumei, nem sempre atribuía ao amor correto. E quase nunca chamava o que sentia de amor. Apenas vagava de peito aberto, sempre arrumando novas cicatrizes, sempre me curando com uma nova dor.

Nunca carregava comigo algo além do necessário. Sempre deixava um pouco para trás, em raras vezes havia a intenção de voltar pra buscar. Até que um dia resolvi trancar a porta atrás de mim deixando do outro lado todas as coisas as quais um dia proclamei minhas. Não lembro se a chave deixei debaixo do capacho ou se fiz deslizar por debaixo da porta. Mas tal porta jamais tornou a ser aberta pelas minha mãos.

large1

Corta. Volta para o pressente. Olha no espelho… e não vejo nada disso. Agora é apenas como se uma casca me revestisse. Uma casca que carrega todas as marcas de todas essas histórias e as conta através de palavras marcadas na pele, desenhos, cores e cicatrizes. Cicatrizes que na bem da verdade há muito deixaram de doer. Cicatrizes que ora nem parecem minhas e me falha a memória de como as arranjei. Aqui dentro estou oca, estou seca. Incapaz de reconhecer como minhas as histórias que escondo no porão e que não permito serem contadas nem mais nas noites de insônia ou bebedeiras, quando costumeiramente eram reescritas.

Em cada uma dessas histórias pouco se fala de força, e um tanto enorme de covardia. Embora eu não tenha a menor ideia de como ainda consigo estar aparentemente inteira e guardar todas essas histórias. Não sei qual força me permite domar todos esses fantasmas ao menos o suficiente para que vez ou outra alguém se aproxime de mim sem se assustar.

E agora essa saudade do que um dia eu tinha capacidade de ser. Esse é o ponto. E sei que dito assim parece que cheguei ao fim da linha, e isso também não deixa de ser verdade. E a umidade que penetra através das paredes não nega isso. Esse pavor gelado que percorre o meu corpo de momento em momento me fazendo lembrar de tudo que eu poderia ter sido e não sou, não nega isso. Esses dias escuros de um quase verão não negam isso.

Há dias as janelas raramente são abertas. Há dias me escondo na noite, fazendo silêncio na sala purgatório tentando pensar em um jeito de preencher essa coisas oca aqui dentro. Faz tempo já sei que não será bebendo o mundo que irei irrigar os rios que permiti que a amargura alheia secassem. Há muito já sei que será dentro dessa sala purgatório em meio a essas paredes úmidas que terei de fazer brotar novamente um jardim aqui dentro.


Instagram ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Twitter ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Facebook ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Filmow ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Skoob ancora-icone-blog-queimei-meus-navios Flickr 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s