Poetiza-me: Manoel de Barros

Contagem regressiva para o meu aniversário (25/31)

Confesso que não conhecia muitos dos poemas de Manoel de Barros e só fui me interessar realmente em ler algo sobre ele com as últimas notícias sobre sua morte, no dia 13 desse mês. Além de ter ficado triste com sua morte fiquei triste em não ter me interessado em conhecer mais sobre ele antes.

Além dos 18 livros de poesia, Manoel de Barros também ficou conhecido por suas obras infantis, e é por esse motivo que resolvi fazer esse post dentro da contagem regressiva para o meu aniversário. A intenção principal desses meus posts nesse projeto é recuperar aquele gostinho bom de nostalgia com as coisas que me fizeram feliz ao longo dos anos e principalmente durante a infância. Os poemas do Manoel de Barros têm esse gostinho.

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Muitos artistas também tiveram nas obras de Monel de Barros inspiração, entre ele o cineasta e documentarista Joel Pizzini, diretor do curta Caramujo-Flor.


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