Se eu não perdi nenhum detalhe, onde foi que eu errei

Um cansaço inominável. O mundo com todas as suas maravilhosas oportunidades se torna cansativo. É insustentável. O algodão sujo da maquiagem que serviu pra esconder o cansaço, a água escorrendo pelo ralo, o chá morno, sem mel, sem gosto. Nada descansa. Mas o sono não vem. O sono que não vem. Aquele filme que eu ainda não vi, o livro que não terminei de ler, o texto que tenho que entregar. A pilha de coisas pra estudar na mesa da sala, o quarto se tornou um labirinto. Ao lado da cama dorme o Minotauro.

No meio da tarde leio poesia, sinto vontade de chorar. À noite nada disso faz mais sentido. Não sinto raiva, nem é carinho ou saudade. Saudade do que?! Se nem no que não foi existe poesia. Não existe o que lembrar. Não existe passado, nem presente ou futuro.

Futuro do pretérito. E eu sigo com todas as minhas imperfeições. Loucura não tem gramática. Foi só invenção, psicose, solidão. Bebedeiras e filmes velhos. Mas hoje de tarde eu li poesia e senti vontade de chorar. Ainda agora vem o nó na garganta, mas não dá pra parar. Não dá pra parar pra chorar, não dá pra parar pra sentir.

Ouço música. Não acalma. Pensar bobagem não distrai. Um copo d’água. O chá esfriou demais. Lembro que praticamente não comi nada o dia todo, mas não sinto fome, sinto cansaço. Nada distrai, nada acalma. Muita informação. Nada alimenta.

Não são os sonhos que me fazem levantar de manhã, são as obrigações. Quem diria um dia levantando cedo, cumprindo horários. Tudo dando certo, mas no final do dia meus olhos vermelhos dizem que tudo não está tão certo assim.

Dou boa noite pra casa vazia, só ouço miados.

Existem tantas formas de dizer nunca, nunca mais. A mais cruel de todas é aquela que não dá a deixa pra algum sofrimento rasgado assumir a cena. E fica esse sofrimento aqui enclausurado.

Mas como dizer nunca mais para o que nunca foi?!

Não existe mais a ilusão daquele outro dia, nunca existiu pra dizer a verdade. Não há nada pra ser esperado. Então não desespero. Assim parece que fica tudo bem e programo pra o dia seguinte o despertador pra o mesmo horário.

Enfim adormeço, e quem sabe um dia desperte primavera.

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