QUOTE: Criança 44 – Tom Rob Smith

Uma vez que Maria tinha decidido morrer, seu gato teria de se virar sozinho. Ela cuidou dele muito muito mais do que fazia sentido para um animal de estimação. Havia muito tempo ratos e camundongos tinham sido pegos em armadilhas e comidos pelos habitantes da aldeia. Os animais domésticos sumiram pouco depois. Com exceção de um, esse gato, o companheiro que ela mantinha escondido. Por que não o matou? Porque precisava de alguma coisa pela qual viver, de algo para proteger e amar, para sobreviver por ele. Prometeu continuar dando comida para ele até o dia em que não pudesse mais alimentar a si mesma. O dia era esse. Ela já havia cortado suas botas de couro em tiras finas, cozinhando-as com sementes de urtiga e raiz de beterraba. Já tinha cavado em busca de minhocas, chupando casca de árvore. Naquela manhã, num delírio febril, havia roído a perna do banco da cozinha e mastigado até as lascas furarem suas gengivas. Ao vê-la, o gato correu, se escondeu embaixo da cama e não apareceu nem quando ela se ajoelhou no chão e chamou-o pelo nome, tentando convencê-lo. Foi nesse momento que Maria resolveu morrer, porque não tinha nada para comer nem para amar.

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