Ciclos lunares

Fazem oito dias escrevi uma carta, uma carta pra mim. Falei de passado, citei segredos. Falei sobre coisas que havia esquecido debaixo da cama. Talvez tenha sido o álcool, a solidão ou as horas que passam rápidas demais, mas quando reli o que havia escrito, não suportei as palavras que ecoavam me lembrando cada lágrima que derramei por tantos ‘alguéns’ sem ninguém saber.

Meio que sem pensar mudei o destinatário. Te mandei uma carta sobre mim, te contei meus medos mais profundos e você nem notou. Elogiou a retórica assim como eu já havia tecido elogios rasgados sobre tuas rimas vazias de você. Disse que um dia falaria comigo sobre tudo isso. Não precisou de ponto final para eu entender que não haveria esse outro dia. Suas desculpas ingênuas, minha ironia como escudo. Duas pessoas que se afastam como dois corpos celestes que prestes a se chocar mudam de rota.

Agora te escrevo, sabendo que não irá ler nenhuma dessas linhas. Você foi só mais um exagero. Uma desculpa que inventei para justificar meus excessos, para me aliviar da culpa dos meus vícios.

Escrevi várias histórias, sempre olhando para o céu, aguardando a lua cheia e pedindo a ela coisas que nem sequer sabia ao certo realmente querer.

A lua minguou. Renasceu. Cresceu de novo algumas vezes. Se pintou de sangue. Iluminou meus pesadelos. E mais uma vez renasceu surgindo cedo num céu pintado de um não lugar. E cheia mais uma vez atendeu a meus pedidos, não às utopias de histórias escritas a beira mar.

Um momento de quietude. Um questionamento rebelde. Uma sincronicidade perfeita sob um céu de meio dia.

Hoje vi a lua nascer plena por entre prédios antigos. Não pensei em você. Não disse seu nome uma vez se quer, nem mesmo em pensamento.

Hoje eu decidi viver sozinha. Viver por sonhos que nunca confidencie se quer à lua.

Hoje te escrevo, não com o peso de uma carta endereçada a mim que o medo da solidão extraviou para você.

Te escrevo, enfim, não por ter me ocorrido que não somos descartáveis, mas por ter entendido que já recebi todas as lições que me podiam ser dadas por você.

Hoje a lua se encheu. Em breve novamente irá minguar. Repetirá mais incontáveis vezes seu ciclo desenhado infinitos perfeitos.

Hoje entendi que somos seres infinitos, tentando brincar de deus numa existência finita.

Um dia quem sabe falemos sobre tudo isso. Um dia quem sabe a lua nasça espelhada em seus olhos. Um dia talvez esqueça aquele outro dia que sempre soube de antemão ser uma promessa falsa.

Enquanto isso continuarei a escrever histórias, e as pintarei de verde mar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s