Revisitação

Tentando reposicionar certezas enquanto andava sobre cacos de vidro em um quarto escuro e vazio.

Já era tempo de descer até o porão, resgatar as malas antigas e abri-las. Manusear mais uma vez cada lembrança gasta, algumas tão frágeis que se desfazem quando tocadas. As recordações físicas, as fotografias e os recortes, assim como as flores secas, já não eram mais suas. Talvez as fotos já tivessem sido queimadas. E seus recortes e anotações, e todas as coisas que um dia julgou importantes, estivessem espalhados por aí, esquecidos em qualquer canto empoeirado e impessoal depois de manuseados displicentemente por pessoas que jamais poderiam entender seus significados mais sutis. Seus livros que guardavam as flores secas, cheiros, manchas de café, chá, e mais um milhão de lembranças escondidas nas entrelinhas, agora já ocupavam outras estantes, e quem os lessem nunca poderia decifrar os códigos secretos invisíveis que eles contém. Mas com relação a isso sentia um certo alívio e examinava a ideia com um sorriso bobo. Porque afinal era para isso que os livros eram feitos, fazer viajar e depois seguir suas próprias viagens. Habitar a vida inteira uma única estante deveria ser maçante demais, assim como ela continuava olhando com desprezo a ideia de ser estanque. Mas era preciso esvaziar as malas, esvaziar a alma e o coração que ainda pesava, para conseguir seguir. Para conseguir voar.

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