Via láctea, mel e olhares felinos

leticia-almeida-blog-queimei-meus-navios

De repente o tempo se colocou em suspenso. O mundo entrou no modo silencioso. Não ouvia nem mais o tic tac do relógio antigo apoiado no peitoril da janela. Era como se flutuasse livre no espaço enquanto andava de um lado pra o outro da cozinha. Só o barulhinho da água, pro chá, fervendo vindo de longe e um gosto agradável de mel.

Sim, ela flutuava patética em sua cozinha no meio da madrugada como sempre fazia já há quase dois anos. Mas todas as luzes acesas e aquele silêncio quase absoluto fugiam do habitual. Apesar da sensação libertadora do voo entre estrelas, sentia a cabeça pesada. Um aperto no peito. Cruzou os braços diante dos seios com tanta força, só apercebendo-se disso quando as unhas afundaram no próprio braço. Não tinha percebido como estava se encolhendo enquanto andava no seu passeio flutuante de um lado pra o outro da sua cozinha que a essa altura já havia se pintado de galáxias. Parou diante do vidro da janela, conseguiu ver seu reflexo turvo. Levou um susto quando distinguiu no reflexo que seus olhos brilhavam. Como os de um gato vindo da escuridão. Cruzou mais uma vez os braços diante do peito. Já era claro que algo queria sair. Algo queria sair de dentro dela, e ela tinha de evitar isso, era o que o seu restinho de bom senso a mandava fazer. Se conhecia bem, achava que conhecia tão bem seus sentimentos que preferia que ficassem ali trancados naquele peito abarrotado que tanto tentava proteger. Achava que toda aquela preocupação realmente tinha razão de ser. Conhecia seus sentimentos, eles eram traiçoeiros.

Naquele minuto o gato branco e amarelo apareceu desconfiado pela porta. Ele adorava dormir no braço do sofá enquanto ela varava a noite de frente para o computador. Seu único companheiro naquela casa sem graça que agora tinha se transformado na via láctea. Era um gato teimoso que ás vezes pulava em seu colo a impedindo de qualquer movimento, arranhado as folhas de seus livros, deitando em cima do teclado do computador ou comendo seus fones de ouvido. O gato miou baixinho, rouco, desconfiado e manhoso, incrível como os animais aos poucos criam uma personalidade comparável as de seus donos. Se obrigou a voltar pra realidade e ir dar comida ao bicho.

leticia-almeida-blog-queimei-meus-navios

O chá morno. Agora havia música, baixinha. Finalmente a paz tinha vencido o caos de pensamentos que a inundara nos últimos dias. Sentou em frente à tela em branco. Queria encontrar alguma forma de reter a sensação libertadora de planar acima de toda aquela confusão, que era a vida e a relação entre pessoas, que havia acabado de experimentar. Mas as palavras teimavam em não formar frases.

Havia um sentimento bobo que a envolvia. Talvez pela música, pelo chão frio sob seus pés descalços, pelo gosto adocicado do mel, algo a deixava a vontade para voltar a acreditar na força dos seus pensamentos e na beleza dos seus sentimentos.

Quis escrever uma história que não precisaria ter final. Uma história que falasse sobre estradas, viagens, encontros e desencontros em dias frios. Uma história que contasse sobre o poder que existe quando dois olhares dispostos se cruzam. Mas seria tudo só invencionice. Olhou ao redor. Os livros e as anotações espalhados, as canetas coloridas e os lápis de cor de que tanto gostava, a caneca de chá pela metade já fria, o gato dormindo quieto. Será que se alguém entrasse ali desconfiaria do universo insondável que existia dentro daquela mente que parecia nunca parar de funcionar? Das ideias que brotavam atropeladas, sempre rápidas demais para que as pontas dos dedos as transformassem em palavras na tela em branco? Ou dos seus passeios em tantas constelações?

O gato espreguiçou devagarinho, a olhou entre os olhos amarelos apertados, curioso. Uma expressão relaxada brotou no rosto sempre tenso da moça, tomou o último gole de chá. Doce, frio. Sorriu mansinha e decidiu viver, mesmo que doesse. Tinha todo o universo diante de si, os pés descalços e uma vontade sincera de sentir.

Inspiral

Responder
à pergunta eterna
coça-me a perna.
Então ando.

Andar
na galáxia infinita
me excita.
Então penso.

Pensar
nebulosa façanha
me assanha.
Então faço.

E quando me falta assunto
Pergunto.

– Celso Mauro Paciornik

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s