Que descanse em paz a lebrança do que nunca aconteceu. E que o sonho não volte nunca mais pra atormentar

Juro que escolherei as melhores palavras para dizer o indizível.
“Não dá pra passar a vida inteira com as coisas entaladas na garganta.”
Não é intuição, é apenas essa náusea que me tira da cama. A falta de ar de perceber que já é tarde para dizer o que quer que seja. Estive tão preocupada em acompanhar os ciclos lunares que acabei me distraindo do caminho enquanto olhava pro alto, pra um céu que pouco a pouco foi ficando sem estrelas. Até que do sonho surgiram monstros, o céu ficou totalmente sem cor, e veio a tempestade. Lógico que eu e minha covardia não vacilamos em fugir para a realidade. Mas a sensação que tive ao perceber como tudo e todos nesse universo estão irremediavelmente interligados ainda me revira o estômago.
 
Poderia chamar de destino, mas prefiro chamar de uma combinação óbvia de fatores motivados pela carência e facilitados pelas maravilhas da tecnologia. Um acontecimento aleatório assistido bem de perto pelos santos dos neuróticos, abençoado pelos anjos da guarda dos solitários, e aplaudido pelos protetores dos covardes.
E assim, com cores desbotadas e fragmentos de histórias mal contadas, imprudentemente fui pintando quadros, infantilmente acreditando que tais obras toscas representavam o que alguém poderia ser. O que você poderia ser. Como se não bastasse tanto desvario, ainda resolvi por minhas obras em exposição. E assim elas foram borradas pela chuva, manchadas com lama e tinta preta, porque claro que nesses casos não iria faltar alguém disposto a derramar ódio sobre um sentimento que só estava começando a acontecer, mas que até esse ponto, acredite, era bonito e mesmo sendo platônico, ou exatamente por isso, tinha seu charme.

Acontece que quem destrói o corpo não elimina a alma. 

É claro que quando me dei conta do vórtice no qual mergulhei, não demorei em destruir todo o meu acervo tosco. Pôr fogo em cada devaneio que pintei com dedicação alucinada durante semanas a fio. Logo toda galeria que montei em seu nome se desfez em cinzas. E fiz questão de me desfazer das cinzas o mais rápido que pude e com toda cautela de quem acabara de cometer um crime do qual se envergonha e arrepende.
 
Um sentimento abortado.
 
Um fantasma que se recusa a adormecer.
 
E agora os anjos e os demônios que me vem tirar o sono têm o seu rosto e a mesma cor dos teus olhos. E eu me pergunto como o mesmo sorriso guardado na memória me vem a mente ora angelical, ora assassino. E a náusea me vem ao perceber que isso tudo é só reflexo de tudo que especulei ao seu respeito. Tão pressa no devaneio confortador do conto de fadas improvável. O que me gela por dentro é não saber se a culpa de tudo isso eu devo atribuir unicamente a minha loucura, ou se você realmente sempre esteve com as portas fechadas pra mim. Mas são detalhes que agora não interessam mais.
 
Já devo ter esgotado todo o meu mísero estoque de gentilezas, tentando te transmitir um carinho que nunca consegui admitir claramente querer te dar. É que apesar de toda minha tendência psicótica ainda acredito que não é assim que as coisas se permitem acontecer. Que não é possível algo como carinho, ou qualquer outra arte de coisa que se sinta, possa brotar entre dois semi-desconhecidos depois de uma conversinha água com açúcar sobre sistemas operacionais e desenhos animados. Não é que eu seja do tipo que se faz de durona. Mas é que não me parece sensato admitir que ouvir uma das minhas músicas favoritas cantada por um estranho charmoso, enquanto brincava de bem me quer, mal me quer, tentando resolver o rumo de uma outra paixonite antiga e ridícula, tenha mexido comigo mais do que me é confortável admitir. 
 
Talvez tudo isso devesse ser bem mais simples e tudo que eu precisaria ter feito era assumir que poesia é um dos meus pontos fracos.
 
Mas é que eu gosto de brincar com as palavras e pintar com elas sentimentos que não se sentem. Vomitando na folha em branco fragmentos do que a covardia disfarçada de bom senso me obrigou calar. Como o vômito de quem põe o dedo na garganta pra se livrar da náusea matinal de uma noite mal dormida e ir enfrentar o dia como o mais normal, sensato, bem resolvido e medíocre dos mortais.

Cuidado com o que você deseja, cuidado com o que você fala. Mas às vezes tenha cuidado principalmente com o que vc cala.

 
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