"Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto"

O certo seria começar dizendo quem sou, me apresentando, me descrevendo. Poderia dizer em qual cidade nasci, o nome dos meus pais, talvez até a cor da roupinha que vesti quando sai da maternidade. Que nasci em uma noite de verão. Que sou muito sonhadora, até meio aluada. Deveria dizer que fui uma criança tímida. Que só fui dar meu primeiro beijo aos 17, e meses depois sai de casa. Que tive um cachorro chamado Scoot, um gato chamado Almodóvar e uma gata chamada Joplin. Que já mudei de casa, de número de celular e de corte de cabelo mais vezes do que é socialmente aceitável. Que nunca namorei sério. Que tenho medo da solidão e que amo o mar, mas não sei nadar direito. Que falo alemão, mas que perdi a fluência, que já fiz teatro e que sou uma péssima atriz. Que sou de sagitário com ascendente em virgem e lua em peixes, que meu signo chinês é dragão, que sou fascinada pela cultura Árabe, que já fiz um curso de piromachia mas ainda não aprendi a cuspir fogo. Que passei boa parte da minha adolescência trancada no quarto, que joguei todos os jogos da Lara Croft e que sempre sonhei em no meio de um diálogo qualquer com uma pessoa qualquer passar uma informação absurda e depois dizer “não é incrível as informações que a gente consegue na internet?”. Quem sabe devesse dizer que não gosto que escrevam errado ou façam substituições como trocar “ch” por “x” ou “qu” por “k”, e que tenho vergonha de admitir que quem faz isso consegue me causar uma baita má impressão. Que tenho sérios problemas com vírgulas e pontos. Talvez devesse dizer ainda, que abandonei o colégio por ter me cansado de ser a estranha da turma, que abandonei uma faculdade de biologia quando descobri que morro de medo de tartaruga e tenho pavor de lagartixa. Que já fiz cursinho pré-vestibular em quase todas as escolas da cidade e desaparecia no segundo ou terceiro mês de aulas, ás vezes para atravessar um oceano, outras pra atravessar uma depressão. Que meu sonho é ser psiquiatra, só porque uma vez ouvi falar que a gente deve escolher trabalhar com aquilo que mais ama. E o que eu gosto mesmo é de gente doida, ainda bem, caso contrário já teria assassinado o espelho. Seria até bonitinho dizer que quando era criança queria ser poetiza e adorava o Caetano. Que Bandolins do Oswaldo Montenegro foi a música que marcou minha adolescência, ou que ouvir Roxette deitada num chão frio me parecia mais legal do que ferver numa pista de dança até o dia amanhecer, quando eu tinha 18. Não sei qual importância teria dizer que gosto mais de química, de biologia e de história, mas que minhas notas mais altas eram sempre em matemática.

Poderia dizer um milhão de coisas a meu respeito. Mas nada disso me tornaria tão diferente de todas as outras moças de cabelos cacheados e olhos pretos que existem por aí. E é exatamente por isso que continuo escrevendo sobre mim, sobre o mundo e sobre os medos.

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Mas eu sou feita de brisa, sol, sonhos e sons.
“Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…”

– Florbela Espanca


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2 comentários sobre “"Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto"

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